A Em entrevista à FSP, publicada em setembro, Bolsonaro, ao responder sobre suas inesgotáveis declarações “polêmicas”–ainda me espanta o pudor direitista de certos editores – disse que ” se eu levantar a borduna, todo mundo vai atrás e eu ainda não fiz isso ainda.”

TRF4 na berlinda
Carlos Roberto Winckler

A afirmação parece se dirigir apenas aos “bolsões sinceros, mas radicais”, expressão utilizada por Geisel em algum momento, mas que aqui assume sentido diverso da “abertura lenta, gradual e segura” dos anos 70. A frase de Bolsonaro, de rara violência poética, ultrapassa a resposta memorável de Figueiredo ao ser perguntado se gostava de cheiro do povo: ” o cheirinho de cavalo é melhor.” Mas esse foi (acreditem) um momento de benevolência, de criação de imagem simpática do ditador de plantão no declínio da ditadura. O ambiente hoje é outro. Bolsonaro expressa o desejo de transitar de um regime de quase exceção, senão de exceção, a um regime ditatorial. Isso em meio a dissensões políticas em seu bloco de apoio (Dória entre outros), à deserção de grupos golpistas “arrependidos” que procuram organizar frente de oposição ao extremismo neofascista miliciano via quadratura do círculo, em tentativa canhestra de reeditar os anos 80, colocando limites à campanha Lula livre; não bastasse a presença incômoda da esquerda, sindicatos e movimentos populares. A frase de Bolsonaro tem um tom de chamamento e reorganização de seus acólitos, mas também é ameaça à direita recalcitrante, aos setores em torno de Dória e à esquerda em luta por uma democracia substantiva. Haja borduna e seguidores! Acuado, Bolsonaro pode passar da bravata à ação, mesmo porque seus movimentos são no sentido de reagrupar seu núcleo duro de apoio (em torno de 10- 12 % sg. pesquisa recente) e de reforçar o controle sobre o aparato estatal. Estão próximas novas nomeações ao STF, à PGR. Segue em curso a desmoralização de Moro (visto como polo alternativo de poder, além de procuradores da Lava Jato) com a interferência na PF. Blindam-se a família e milícias, visitam-se com frequência quarteis em busca de apoio junto à tropa.

Segue em curso a desmoralização de
Moro (visto como polo alternativo
de poder, além de procuradores
da Lava Jato) com a interferência na PF.

Nesses tempos de nacionalismo farsesco o Hino à Independência assume ares orwellianos. Qual o sentido das palavras igualdade, liberdade, justiça, cidadão, quando imperam a desigualdade, a servidão, a injustiça, milicianos e a clava tem outra serventia? Para não confranger o coração dos consumidores-cidadãos, vergados sob o peso da realidade, o Mercado organizou, com apoio governamental, para a Semana da Pátria grandes liquidações. A estética e a ética do regime estão sintetizadas nas Lojas Havan e nas reproduções da Estátua da Liberdade, que imponentes, nos pátios de estacionamento nos recordam a simetria entre liberdade e consumo, com bem ensinava certo filósofo uspiano na década de oitenta. Um visionário. Sedução da Mercadoria e Violência, eis a bela Aparência do neofascismo colonial.

*Sociólogo, professor
aponsetado pela FEE

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