Momento para dedicar-se a um livro ou refletir sobre notícias

“Silhouette”, de Paolo Barzman (Reprodução)

A força da leitura

Na crônica “A obra de arte lacrimogênea” (em O leitor apaixonado, 2009), Ruy Castro faz uma consideração sobre a força da literatura na vida das pessoas. No caso, como provocadora de emoções; mais especificamente, nas lágrimas que o leitor derrama ao ler um romance ou um poema. Ou deixa de derramar.

É prazeroso reler essa crônica. Ela leva a refletir sobre as ações e reações sociais nos dias de hoje, quando sentimentos tão negativos afloram com facilidade, quando o desrespeito é tão flagrante e quando, por vezes, as pessoas todas se igualam, da pior forma possível, às vezes a partir da leitura de uma manchete de jornal, sem observar o devido contexto.

Leitura e prazer

Se um livro nos permite a liberdade do pensar e do sonhar, os veículos de comunicação impressa – os que ainda resistem – parecem arautos do fim mundo, com manchetes assustadoras que mancham o neofilismo hipermoderno com os borrões de uma necrofilia medieval. “Viveu-se certa despreocupação com o futuro – mas agora é na insegurança que, cada vez mais, vive-se o presente”, assegurava Gilles Lipovetsky em Os tempos hipermodernos (2004).

Na tentativa de captar alguma lógica num contexto próximo do irracional, arrisco dizer que poucas coisas parecem comover as pessoas, desnorteadas que estão com o rumo dos acontecimentos. Mas, sabe-se que as lágrimas vertem em todos os cantos do planeta, como esta chuva que ora cai e deixa a cidade escorregadia e úmida. Só aparentemente o risco da morte na vida real parece ter cauterizado as glândulas lacrimais. Porém, assistir o noticiário com um sentimento de impotência não quer dizer que os sinais de alerta deixaram de tocar, embora a indiferença pareça compor o retrato do novo ser humano que sobrevirá dessa tragédia.

Mentiras e competência crítica

No começo de maio, um dos principais jornais do País estampava duas fotos na capa: no alto da página, um fotógrafo quase era impedido pelos manifestantes de registrar as manifestações de apoio ao presidente, na Praça dos Três Poderes; logo abaixo, a manchete retumbava que o presidente “vai a ato, diz ter apoio militar e desafia STF”; a segunda foto mostra o estacionamento vazio de um shopping, na Grande São Paulo – “Na pandemia, sobram vagas”. De lá para cá, as imagens somente aumentaram a tristeza do leitor.

Depois de atropelar, paulatinamente, a legislação e o bom senso, o mandatário brasileiro submeteu-se a um novo teste para a Covid-19, no começo de julho. Esse gesto teve alguns sentidos, agora perdidos na sucessão de disparates por ele produzidos: aceitou fazer o exame, por livre e espontânea vontade, com tardia consciência, mas também se pode entender que foi obrigado a fazê-lo, precisando rever suas bravatas sobre os riscos de contaminação, ou, quem sabe, diz que fez apenas para criar novo diversionismo.

Essa situação, que aparenta ser mais um jogo de cena da política brasileira, leva a refletir sobre o poder da leitura, ainda que por vias transversais. O ensaísta Alberto Manguel lembra que as sociedades letradas reconheciam o aprendizado da leitura como a passagem “para fora de um estado de dependência e comunicação rudimentar” (em Uma historia da leitura, 1997).

Como, entendendo que historicamente evoluímos, ainda nos mantemos tão dependentes do simbolismo do poder e vivemos em um estado de rasa articulação comunicacional, em que os pronunciamentos estão revestidos de mentiras, ilações e falta de empatia?

Egoísmo e individualismo assustadores

O período de isolamento a que estamos submetidos, mesmo0 que não cumprido voluntariamente e de acordo com as normas estabelecidas por órgãos mundiais que cuidam da saúde – embora as contradições se evidenciem a cada fim de semana –, poderia representar um momento para avaliações de sentimentos como o egoísmo e o individualismo.

Em algum momento, egoísmo e individualismo são uma coisa só, de difícil distanciamento. Absorvido pelo “eu social”, apegado aos valores que são apenas seus ou que podem se tornar seus, o indivíduo comete gestos imprudentes, enquanto as estatísticas põem por terra qualquer tipo de segurança em todo o País, que, contabiliza mais de 100 mil mortes pela Covid-19 e mais de 1,5 milhão de casos – os números não param de crescer, assim como a irresponsabilidade (capa do jornal O Estado de S. Paulo, em 7 de agosto, repercutia: “100 mil mortes por Covid o Brasil: como evitar uma tragédia ainda maior?”, estampada em fundo branco), que cotidianamente verifica-se não ser somente dos governantes.

Egoísmo e individualismo convergem num aspecto crucial: quando os que comandam se interessam mais pelas diretrizes econômicas em torno do privado do que pelos possíveis benefícios do que é (do) público.

As prisões superlotadas tornaram-se mais um foco de propagação do vírus, com a desobrigatoriedade do uso de máscaras. Mas, os que pensam que aqueles que lá estão não merecem melhor sorte, não devem esquecer que também as igrejas, os salões de beleza, as barbearias e o comércio ganharam o passe livre oficial, com apoiadores em todas as áreas e classes da sociedade.

Cansaço

Os dias são cansativos.

Mais do que poderiam ou deveriam, mas a vida tem disso. Tem essas encruzilhadas, esses reajustes na insanidade humana.

Há quem apoie, há quem critique, há quem se contradiga, e existe, também, aquele grupo que comunga com a bagunça, como se vê, por esses dias, nas ruas das cidades, nos noticiários e nas redes sociais.

Mas não dá para parar de questionar a realidade, assim como não dá para negar a esperança, mesmo que ela se resuma cinicamente ao “vai passar”, mesmo que ela seja continuamente fragmentada e sofra tentativas de destruição.

O Ministério da Saúde, no momento em que escrevo, mantém o comando interino (há mais de 100 dias) e a violência avança. As vagas nos estacionamentos de shoppings voltam a ser ocupadas e nos hospitais elas quase não existem. Morre-se em casa, como em mil oitocentos e quaquerada, não pelo ritual da morte privada, mas pela incompetência de muitos gestores e pelo egoísmo de outros tantos viventes – e nos principais jornais no dia 11 de agosto as mais de 100 mil mortes já são “notícia velha”; a tragédia poderia ser narrada, como num conto de Rodrigo M.F. de Andrade, embora não com a mesma sutileza.

Em contrapartida, as evidências de que é possível mudar o rumo das coisas estão à disposição. Talvez uma nova percepção surja destas tragédias diárias que vivemos e possamos enxergar melhor o mundo que habitamos. O pesquisador do grupo de pesquisas Cosmópolis (CNPq), Roger Andrés, também acredita que o momento é propício para que o invisível e o naturalizado passem a ser vistos e questionados acerca de sua pré-condição.

A força da leitura

Por fim, no diálogo entre Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, em Não contem com o fim do livro (2010), o mediador Jean-Philippe de Tonnac, jornalista e ensaísta, cita o escritor alemão Hermann Hesse, que vem a calhar: “Quanto mais, com o passar do tempo, as necessidades de distração e educação popular puderem ser satisfeitas com invenções novas, mais o livro resgatará sua dignidade e autoridade.”

A escrita, como “testemunha imortal”, viabilizada pelos veículos de comunicação e pelos livros, acrescentou variadas possibilidades de desenvolvimento ao ser humano. A leitura, como aptidão natural, privada e infinita, tem a ver com o amadurecimento social. Fico triste quando as pesquisas indicam que as pessoas leem menos, ainda que não queira acreditar; quando chegam notícias do fechamento de livrarias; quando o livro e a leitura são menosprezados por aqueles que conduzem o futuro de crianças, jovens e adolescentes.

Fico triste com tudo isso e também com a dissociação que é costumeiramente feita entre a leitura e a capacidade de mudar o mundo, sem precisar esconder as lágrimas e sem deixar de acreditar que o livro é uma companhia e tanto para esses dias de ressignificação do mundo em que vivemos. O que talvez inclua a erradicação de um modo de vida inconsequente; que talvez deixemos de desconsiderar a natureza e, quem sabe, transformemos o hábito da leitura e o ato do respeito a todos os seres vivos em uma atitude política.

A foça da leitura
Dinarte Albuquerque Filho

A força da leitura

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*Dinarte Albuquerque é jornalista, mestre em literatura pela UFRGS