dinarte albuquerque filho


 

Exemplos aleatórios para um “modo de ser e estar”

Poesia: pra que ela serve? Eis uma pergunta resiliente no cotidiano opressivo e maçante que nos envolve. Pretensiosamente, o título do artigo sinaliza  meu entendimento sobre a questão. Mas é preciso alongar o debate porque, embora o nosso tempo sugira a síntese, persiste  profunda confusão entre este recurso e a pobreza do vocabulário e do “modo interpretativo”.

Já no século XIX, o poeta Gregório de Matos versejava criticamente contra o governo e as instituições sociais, tanto que mereceu o título de “Boca do Inferno” (não somente pelas palavras de calão). No início do século XX a crítica social e política em forma de poesia era ouvida/declamada pelos cordelistas, e industrialmente espalhada entre a população pelo paraibano Leandro Gomes de Barros a partir de sua Typografia Perseverança, em Recife, no ano de 1915.

Em seguida, o mundo estremecia com as guerras de descolonização, que trouxeram a emergente questão dos “novos sujeitos da história”, como diz Heloísa Buarque de Hollanda. A poesia era épica e engajada. O modernista Guilherme de Almeida, por exemplo, compôs “Bandeira Paulista”, que inicia com os seguintes versos: “Bandeira de minha terra/ Bandeira das treze listras/ São treze lanças de guerra/ Cercando o chão dos paulistas”. Os poemas circulavam por rádios clandestinas, que procuravam escapar da censura – a massificação do veículo de comunicação permitiu um novo público, embora o número de aparelhos fosse pequeno. Mas, no final da década chegou ao ouvido do mundo o anúncio da Segunda Grande Guerra, determinando um antes e um depois na história moderna.

Os anos 40

Nesse clima, a década de 1940 ficou marcada pela imposição das Forças Armadas na política brasileira. Surgem novos partidos, os comunistas são cassados, as greves se espalham pelo país e a Igreja Católica interfere nos costumes e na família com a Campanha da Legião da Decência (1949). O poeta Carlos Drummond de Andrade publica A Rosa do Povo (1945), Jorge Amado, Seara vermelha (1946) e Erico Verissimo, O Continente (1949), e dá início à trilogia O tempo e o vento.

Em A Rosa do Povo, Drummond escreve “A flor e a náusea”, em que, tomado de tédio, observa: “Uma flor nasceu na rua!/ Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço de tráfego./ Uma flor ainda desbotada/ ilude a polícia, rompe o asfalto./ Façam completo silêncio, paralisem os negócios,/ garanto que uma flor nasceu.” (1984, p. 16). Inserido nos erros do mundo, o poeta contrapõe a consciência social da época de totalitarismos ao amesquinhamento do homem, embora também perceba a mudança que começa a se delinear. Afinal, a flor “É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio” (1984, p. 17).

Os anos 60

O grande acontecimento popular dos anos 60 é a estreia do programa A buzina do Chacrinha, na TV Rio (1960), fruto da indústria cultural que se implementava na época. Já na literatura, Erico Verissimo conclui a trilogia O tempo e o vento com a publicação de O Arquipélago (1962), e é assinalada a perda de Guimarães Rosa, aos 59 anos. A década de 1960 é considerada, ainda hoje, os “anos de ouro” da produção cultural brasileira. Em todas as Artes e nas manifestações promovidas em todo o País, principalmente pelos “jovens”, que passam a ter voz própria.

Vozes que irão se voltar contra os golpes militares que impunham aos cidadãos um controle caracterizado por ações repressivas ao indivíduo e à sociedade, desestabilizando a democracia e a livre expressão nos anos 60. O momento pedia uma literatura de testemunho, e ela veio, plural, independente e inovadora, às vezes solitária, mas nunca contemplativa; outras vezes somando-se como instrumento contra as arbitrariedades do regime restritivo que se impunha.

Era a chamada “erupção inconformista”, que rompia com o lirismo e a lógica realista, evidenciada na prosa. Na poesia, a temática social ganhava corpo e, ao lado de poetas que já tinham espaço na mídia (ainda que escassa), novas linguagens passaram a fazer parte da cena, fosse pelas manifestações da poesia concreta de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos, com suas intervenções radicais, fosse nas da poesia-praxis. Nelas  os autores propunham um novo ato de compor, que submetia-se ao espaço da composição e levava em conta o ato de consumir , como se observa nos trabalhos de Mário Chamie, Armando Freitas Filho e Mauro Gama.

No mesmo período, o poeta Thiago de Mello, adido cultural brasileiro no Chile, renunciava à missão oficial e se sobressaía na crítica e no “grito” por uma nova sociedade com o poema Estatutos do Homem (1964): “A partir desse instante/ a liberdade será algo vivo e transparente/ como um fogo ou um rio,/ e a sua morada será sempre/ o coração do homem” (“Artigo Final”). Os Centros Populares de Cultura (CPC) acolheram a produção de uma literatura de resistência como testemunho histórico. Os artistas e intelectuais envolvidos com o CPCs acreditavam que toda manifestação cultural deveria ser compreendida “sob a luz de suas relações com a base material”. Afirmavam, ainda, segundo a pesquisadora Vera Calicchio, que “fora da arte política não há arte popular”, acrescentando que era dever do  brasileiro “entender urgentemente o mundo em que vive” para “romper os limites da presente situação material opressora”.

O piauiense Torquato Neto, desiludido com o futuro, pôs fim à vida, como se lê em Os últimos dias de paupéria (1982); antes, ao desafinar “o coro dos contentes”, ele assim escreveu: “um poeta desfolha a bandeira/ e a manhã tropical se inicia/ resplandente cadente fagueira/ num calor girassol com alegria/ na geleia geral brasileira/ que o jornal do brasil anuncia”, musicada por Gilberto Gil no fundante disco Tropicália ou Panis et Circensis (1968), em que fazia o contraponto de um país com o pé na modernidade mas imerso, intensamente, na tradição do bumba-meu-boi.

Os anos 70

Os anos 70 iniciam-se com a conquista do tricampeonato mundial pela Seleção Brasileira. Euforia nas ruas e nos corações. Na literatura, a poesia ganhava um novo impulso. As vozes dos jovens que começaram a ser ouvidas na década anterior, conquistaram seu espaço, embora enquadradas sob o título de “marginal” – mas é bom frisar que o conceito se dava muito mais pela forma de distribuir o trabalho do que por outras razões, tanto que também ficou conhecida como “geração mimeógrafo”. Esse movimento influenciou a produção brasileira de tal forma que ainda persiste, adaptado aos novos “modos de fazer”, apropriando-se da tecnologia e demais componentes/recursos da indústria cultural. Curiosamente, os poetas dos anos 70 “vingaram” na década seguinte, embora muito de sua produção tenha sido veiculada desde antes…

O escritor, professor, crítico e letrista Cacaso, por exemplo, começou nos anos 60, mas em 1978, no livro Na corda bamba definia-se em “Lar doce lar”: “Minha pátria é minha infância:/ por isso vivo no exílio” (1985, p. 63). Já o mato-grossense Nicolas Behr condensava a experiência da época no poema “Receita” (1978, s/p), com um “tom algo frio e irônico” e uma estratégia que permitia que o eu lírico assumisse o papel de “um medium discursivo para tratar da história”, entende Jutgla (2015, p. 411).

Ingredientes:

2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções dos beatles

Modo de preparar

dissolva os sonhos eróticos/ nos dois litros de sangue fervido/ e deixe gelar seu coração/ leve a mistura ao fogo/ adicionando dois conflitos de gerações/ às esperanças perdidas/ corte tudo em pedacinhos/ e repita com as canções dos beatles/ o mesmo processo usado com os sonhos/ eróticos mas desta vez deixe ferver um/ pouco mais e mexa até dissolver/ parte do sangue pode ser substituído/ por suco de groselha/ mas os resultados não serão os mesmos/ sirva o poema simples ou com ilusões

Os anos 80

O paranaense Paulo Leminski tornou-se referência a partir da década de 1980, quando publicou seu primeiro livro, Caprichos & Relaxos, por uma grande editora (Brasiliense, 1985). Trata-se de uma coletânea de outros livretos publicados de forma independente e distribuídos nos circuitos alternativos da época – o livro, que teve sua primeira edição em 1982, ainda hoje é um dos maiores fenômenos de venda do gênero no País, ultrapassando qualquer expectativa comercial em se tratando de livros de poesia. Em seguida, em um dos poemas de Distraídos venceremos (1987, p. 70), Leminski trata da cena e do conceito de forma bastante singular:

Marginal é quem escreve à margem,/ deixando branca a página/ para que a paisagem passe/ e deixe tudo claro à sua passagem.// Marginal, escrever na entrelinha,/ sem nunca saber direito/ quem veio primeiro,/ o ovo ou a galinha.

Marginal, por estar à margem do sistema; por incorporar o coloquial na fala poética, “como fator de inovação e ruptura com o discurso nobre acadêmico” (HOLLANDA, 1998, p. 11). E temos muitos outros exemplos do período. A poeta Alice Ruiz, sem perder o compasso e o ritmo, refletia: “se eu fizer poesia/ com tua miséria/ ainda te falta pão/ pra mim não” (1984, p. 54). Chacal vibrava com novos tempos em “Vinte anos recolhidos”, do livro Drops de Abril: “chegou a hora de amar desesperadamente/ apaixonadamente/ descontroladamente/ chegou a hora de mudar o estilo/ o vestido/ chegou atrasada com um trem atrasado/ mas que chega” (1983, p. 17). Galvão, com sua herança tropicalista determinava que “Entre em sonho/ e não há fruto proibido/ O sonho é a saída,/ o transporte e o porto” (Ovos Brasil, 1987, s/p.).

A década é efervescente. Temos Ana Cristina César, de Luvas de Pelica (1980) e A teus pés (1982), Roberto Piva, de Antologia poética (1985) e Wally Salomão (de tantos poemas-documentos, como no sempre surpreendente Gigolô de bibelôs (1983), anos depois “misturando as novidades” em O mel do melhor (2001) e Armarinho de miudezas (2005). Em um mundo embrutecido, dogmático, com tudo aparentemente pronto – verdades, modismos e manuais de instrução – a literatura se mostra atenta para o seu papel. O de resistência.

Pelo menos a partir do que ensina José Castello, em entrevista para Paulo Lima . “A literatura é, por excelência, o lugar do desarme”, afirmou. Mais adiante, ele reafirma: “Num mundo como o nosso, em que tudo nos lança para fora e para a superfície, em que tudo parece pronto e automático, a literatura, creio, se torna matéria não só de resistência, mas de salvação.”

O acadêmico Rafael Ramos nos lembra do valor social da literatura (em todos os gêneros) desde o período clássico. O poeta Homero dizia que a função dela era “ensinar e deleitar”. Hoje, acrescenta, a partir do escritor Rubem Fonseca, que a literatura “serve para tirar o homem do seu local de comodismo, serve para ajudar-nos a ler a sociedade na qual estamos inseridos, além de ser a válvula de escape que o homem tem para se abster, por um momento que seja, do sistema opressivo e maçante do qual faz parte”.

Talvez concordemos que o escritor deve ser o homem que vive conforme o seu tempo; podemos lembrar Ezra Pound, quando disse que “o poeta é a antena da raça” – e que para saber como eram as pessoas antes dos anos 1750 bastaria ler os poemas da época – ou simplesmente ler os poemas e poetas que não se conformam (a maioria, por uma questão da escolha do “modo de fazer”) com o que está ao seu redor.

É difícil situar-se nos dias de hoje. “As coisas parecem que vão muito mal, e é difícil ver como poderiam melhorar”, interpreta o filósofo Daniel McInerny . Muitas são as causas do nosso mal-estar cultural, diz ele. Entre elas, a percepção de que “As escolas, em diferentes níveis de ensino, estão escolhendo a caverna em vez da luz. Estamos sofrendo na espinhosa cama das ideologias secularistas.”

Poesia e antiptroduto

Fiquemos com a premissa de que a literatura argumenta, persuade e converte. Oferecendo-nos quadros do ser humano em ação, dos seres humanos à procura da felicidade. A poesia, como uma espécie de antiproduto comercial, destinado a um público específico, restrito até, ao mesmo tempo é uma estratégia contra a linguagem automática e a mecanização dos sentidos. E muitos poetas fazem esse exercício. Um livro de 2017, 50 poemas de revolta (Companhia das Letras), que, como toda coletânea sempre deixa de fora alguma voz, mostra que a luta continua, num Brasil estilhaçado pelas gritantes diferenças. Assim, é importante que os autores, leitores, amantes e amados, reflitam sobre a importância da poesia como resistência. Os anos seguintes a esta análise também contam com poetas imbuídos desse papel – como Claudia Roquette-Pinto, Carolina de Jesus e Conceição Evaristo, entre outras vozes. Mas esse estudo fica para outra oportunidade.

Referências

ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. Rio de Janeiro: Record, 1984.

CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985.

CHACAL. Drops de Abril. São Paulo: Brasiliense, 1983. Coleção Cantadas Literárias, n. 16.

DUARTE, Ana Maria Silva de Araújo; SALOMÃO, Wally (Org.). Os últimos dias de paupéria (Do lado de dentro) Torquato Neto. 2. ed. ver. e ampl. São Paulo: Editora Max Limonad, 1982.

GALVÃO, Luiz. Ovos Brasil (poemas). São Paulo: Brasiliense, 1987.

HOLLANDA, Heloísa Buarque. Esses poetas: uma antologia dos anos 90. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1998.

JUTGLA, Cristiano Augusto da Silva. Poesia de resistência e a luta por direitos humanos. Universidade de São Paulo: São Paulo, 2015. Revista Via Atlântica, n. 28, p. 395-412. www.revistas.usp.br/viaatlantica/article/view/98618 Acesso em 17.10.2018.

LEMINSKI, Paulo. Distraído venceremos. São Paulo: Brasiliense, 1987.

SIMON, Iumna. Considerações sobre a poesia brasileira em fim de século. Novos estudos CEBRAP, n. 55, p. 27-36, nov. 1999. Acervo: novosestudos.uol.com.br/produto/edição-55/ Acesso em 16.10.2018.

https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/NaPresidenciaRepublica/Centro_Popular_de_Cultura Acesso em 16.10.2018.

 

*Jornalista, Ms. em Letras – Literatura (UFRGS)