A possibilidade de um novo tempo
Natália Bianchi


A possibilidade de um novo tempo

Como todo artista que sabe onde o povo está, Milton Nascimento e Beto Guedes criaram a canção Nada será como antes. Era a década de 1970 e o Brasil, para quem não lembra ou para quem insiste em negar, emergia de um período sombrio, o da ditadura militar. A dupla perguntava: “Que notícias me dão dos amigos?/ Que notícias me dão de você?” Fazia sentido.

Os dias parecem de outros tempos e, com o negacionismo naturalizado nas redes sociais, ouso dizer que é importante dar tempo ao tempo. Talvez nunca tenhamos aprendido sobre esse gesto, talvez nunca tenhamos entendido corretamente a força dessa ideia, principalmente antes de emitir uma opinião, por si sem garantia de validade. Mas algo em mim, contrariando o que afirmo, diz que é preciso, mais do que nunca, internalizar a ideia e escutá-la atentamente. E, por ora, mentalizar e agir para dar respostas positivas à canção de Milton e Beto no alvoroço que tomou conta de nossos corações, que pode terminar amanhã ou depois de amanhã. Ou não.

Muitos, antes de mim, mais esclarecidos e com melhores argumentos, escreveram sobre a importância do tempo. O tempo como estrutura de possibilidades; quando se pode escolher e quanto à impossibilidade da escolha. A sucessão de acontecimentos nos dá a sensação de estarmos em progressão, mas, a todo instante, nos remete a um passado nefasto e dá uma sensação de apequenamento; como sempre, nos deparamos com as escolhas – acertos e erros – que constituem o ser-aí de Heidegger.

PELA CIDADE

Sem aprofundar questões filosóficas, aventuro-me em questões prosaicas. Diletante, acostumado a caminhar pelas ruas da cidade, observando suas pequenas transformações, sinto-me excluído desses espaços de transição, urbanos e humanos. Fico curioso em saber o que terá mudado quando puder circular novamente, de Lourdes a São Pelegrino, a pé ou de bicicleta, como se fosse um destino qualquer.

Sei… nada terá mudado na superfície das coisas. Os mesmos prédios, a mesma praça, os mesmos bancos e as mesmas filas intermináveis… Aparentemente, hei de concordar. As estruturas de poder, simbólico ou não, se manterão sólidas e quase atemporais, configurando a cidade por onde minha vida flui há mais de 30 anos.

Ali na esquina, a padaria, na quadra seguinte, as clínicas oftalmológicas e as óticas, mais adiante, um paredão quase ignorado, algumas quadras mais abaixo, à minha esquerda, o Centro Administrativo e o Poder Legislativo; no sentido contrário, a loja de informática, a pizzaria, a loja de tatuagens, o posto na esquina… e assim voltarei a marcar meu percurso, reparando nas sutilezas da grama que cresce entre os vãos das calçadas descuidadas, nos modelos das vitrines, que trocam de roupa a cada 15 dias, no esqueleto do prédio que teve sua ascensão aos céus interrompida muito antes deste jogo pérfido entre a salvação de vidas e a manutenção da prosperidade.

…A MESMA CIDADE

Talvez encontre novos cartazes de lojas que fecharam as portas, outras salas comerciais à disposição para alugar – bocas desdentadas em gigantes de aço e concreto a apavorar o cotidiano. Será que encontrarei as mesmas pessoas? É provável, até mesmo possível. Por certo continuarei a não saber como estas pessoas se sentem. Intuirei, como costumo fazer. Imaginarei, aproveitando a ociosidade da caminhada, quando voltar a sentir o sol e o vento despreocupadamente.

Arrisco dizer que estarão mais sorridentes, suas feições mais relaxadas, aliviadas por terem o direito de ir-e-vir reinstaurado, sem culpa. Há, na física quântica, a lei da simultaneidade dos fatos dialéticos; a forma e o conteúdo unidos para a compreensão da realidade ainda estarão aí para que tenhamos oportunidade de enxergar o novo. Também podemos continuar a agir de forma indiferente.

É possível, de forma simples, resumir que vivemos neste momento histórico o resultado de nossos acertos e dos nossos erros. E presumir, diante do quadro assustador e incerto, também ser possível que a solidariedade e a unidade mundial, fortes no plano virtual, nos ajudem a entender que é crível o surgimento de um novo ser humano, reconhecidamente único em suas múltiplas existências e, ainda assim, em um tempo autêntico.

O FUTURO LOGO ALI

Até agora tem sido fácil identificar culpados ou responsáveis por tudo o que ocorreu em nossa história. Em diferentes momentos e circunstâncias, consideramos o princípio de que a brutalidade e a inconsequência sempre partem dos outros e a crueldade não faz parte do componente humano, genericamente humano. E quase sempre nos surpreendemos. O mundo em que escrevo, agora, está mais higiênico e individual, a natureza se reorganiza sem a presença devastadora do homem, mas, e daí? Será mantida esta ordem ou logo nossa vaidade ferida irá se curar e dará lugar à usual prepotência?

Logo, espera-se, estaremos em condições de pôr o pé na estrada novamente. Com um gosto de sol na boca, com um outro futuro a ser construído. Agora, neste frágil instante, ouço Milton e Beto Guedes e quero saber dos amigos e de você, quero saber o que faremos a seguir, quero tomar um café contigo, ouvir sobre planos e projetos imaginados neste dias de afastamento, mesmo sabendo que o futuro que nos aguarda não será exatamente como o que imaginei. Mas há a possibilidade de que ele possa ser infinitamente melhor. E eu espero, sinceramente, que ele seja.

A possibilidade de um novo tempo
Dinarte Albuquerque Filho. Foto: Mario André Coelho
A possibilidade de um novo tempo


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*Dinarte Albuquerque é jornalista, mestre em literatura pela UFRGS