Atentado ao bar de refugiados El Janiah
Carlos Roberto Winckler

A bênção de Edir Macedo e o desespero
de Bolsonaro ajoelhado, são a síntese
de um governo que naufraga

Atentado ao bar de refugiados El Janiah em São Paulo

É possível uma dupla leitura desse ato: simbolicamente busca reforçar laços com setores neopentecostais mais fanáticos que se veem como o povo escolhido e que têm afinidades eletivas com o neofascismo tropical, mas também é reforço da aliança empresarial com o grupo Record aquinhoado com recursos federais.

A visita de Bolsonaro a Sílvio Santos após o ato é algo complementar. O desastre social é evidente. Os dados do IBGE recém-divulgados apontam o País à beira da recessão técnica, do declínio salarial, do recuo do emprego formal e aumento da informalidade. A proposta orçamentária para 2020 mostra recuo de investimentos públicos ao ponto de se correr risco de paralisação dos serviços públicos já manietados pelas restrições da Emenda do Fim do Mundo.

A visita de Bolsonaro a Sílvio Santos
após o ato é algo complementar.
O desastre social é evidente.

E o que oferece Bolsonaro? Mais do mesmo, acrescido de aceleração das privatizações. Seu discurso se volta ao núcleo duro do neofascismo tropical, no momento em que sua base parlamentar sofre reveses com derrotas pontuais no Congresso ­– onde se reforça o liberal conservadorismo capitaneado por Rodrigo Maia –, com o esfacelamento crescente do PSL e o crepitar da fogueira das vaidades com a aproximação das eleições municipais, não bastassem os incêndios na Amazônia promovidos por pecuaristas e grileiros bolsonaristas.

Talvez nem emplaque Eduardo embaixador nos EUA. Até mesmo Trump percebe que a proximidade é tóxica à sua ambição de ser reeleito. O isolamento internacional já se faz sentir nos negócios. Pesquisas recentes confirmam um naufrágio estrutural. Há queda na aprovação em todos setores da população. As mais preocupantes para o governo são dos setores mais ricos e das mulheres mais pobres. O declínio é mais lento no Sul, mas a tendência à queda parece ser irreversível.

Até mesmo Trump percebe
que a proximidade é tóxica
à sua ambição de ser reeleito.

Há quem diga que, ao final, o núcleo bolsonarista ficará restrito a oito ou dez por cento. Chegará ao fim do ano? Será impedido? Reagirão os núcleos bolsonaristas com o que resta de apoio na população, nas milícias e nos setores do exercito? Mesmo a libertação de Lula encontra maior respaldo fora de circuitos oposicionistas. Vivemos horas obscuras.

A reação pode ser violenta no sentido de atemorizar dissidentes e a oposição. Atos aparentemente isolados como o atentado a um restaurante em São Paulo podem se multiplicar. E quem não se lembra de Silvio Frota e do atentado a OAB no declínio da ditadura? Teremos mais Marielles e ativistas sociais assassinados?

Somente a luta pela queda imediata de Bolsonaro e eleições gerais exigidas nas ruas abrirão passo à democratização desejada. A primeira opção, nesse cenário, parece mais fácil. A bênção de Edir Macedo, talvez, tenha um único resultado: colocar os bolsonaristas mais renitentes na Arca dos Desesperados a conduzi-los com segurança ao paraíso dos terraplanistas: Vermont, onde lamberão feridas junto ao seus profetas: Olavo de Carvalho e Steve Bannon.

Sociólogo, professor
aponsetado pela FEE

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