Brumadinho, área do novo crime ambiental da Vale, deve receber Presidente Jair Bolsonaro, acompanhado de seu ministro condenado por favorecer empresas de mineração e indicado para desmontar o Ministério do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Matéria publicado pelo UOL, esclarece que o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais informou nesta sexta-feira (25) que foram três barragens da mineradora Vale que se romperam no final da manhã (25) e não apenas uma como foi inicialmente divulgado. 

Presidente Jair Bolsonaro  anunciou a viagem  para Brumadinho, região do novo crime ambiental da Vale,  acompanhado, também, de outros ministros. No pronunciamento, ele destaca as medidas emergenciais decididas pelo governo federal e em entrevista evidenciou:  “A questão da Vale não tem nada a ver com o governo federal”. Apenas cabe a nós a fiscalização, por parte do Ibama, que é um órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, e buscar meios para se antecipar a problemas”. Mas esses meios partem, primeiramente, da empresa que executa a obra, e só em Minas são 450 represas parecidas, como essa. No Brasil todo são quase 1.000. Então, é um número enorme”, completou. 

 
 

 
 

Matéria do  Vi o Mundo lembra a condenação de Salles  por improbidade administrativa. Ele foi acusado de favorecer empresas de mineração ao mudar o zoneamento do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental do Rio Tietê (SP). “Ou seja, é o homem certo para peitar a Vale — cujo presidente, Fábio Schvartsman, deve acompanhar Bolsonaro”.
Mas o time tem outros jogadores, a julgar pela entrevista de Romeu Zema (Novo). Em novembro de 2018 para o Hoje em Dia, decorridos três anos da maior tragédia socioambiental do Brasil,  o rompimento da barragem de Fundão (Mariana), o governador eleito de Minas afirmou que pretendia “facilitar a liberação de licenças ambientais para a atuação de mineradoras, além de manter, inicialmente, a proposta de fundir as secretarias do Meio Ambiente e Agricultura”. Qualquer semelhança com declarações recentes do presidente eleito não são, portanto, mera coincidência.

Na ocasião, como confirma matéria do Brasil 247, Zema afirmou que pretendia trabalhar para agilizar licenças ambientais, especialmente para as mineradoras. ‘Teremos uma secretaria do Meio Ambiente muito mais técnica do que política, o que já acontece ultimamente. E de uma forma que ela tenha condição de zelar pelo meio ambiente. Mas agilizando as licenças. Hoje temos licenças de mineradoras que estão há dez anos ou mais aguardando”.
 

Fantasma da Samarco ronda Brumadinho

Zema também se disse favorável à retomada das atividades da Samarco em Mariana. “A empresa já foi penalizada, vai pagar a multa e tem que recuperar os danos ambientais. Ela ficando sem trabalhar, tudo isso fica mais difícil ainda”, declarou na ocasião. A afirmação, porém, é controversa, pois  apesar de acordo entre mineradoras Samarco, Vale, BHP e órgãos públicos, que incluiu também os atingidos,  dois anos e meio depois da maior tragédia ambiental do País, famílias ainda esperavam ajuda emergencial. E a Samarco, mesmo livrando-se de encargos financeiros, tem na sua conta 19 cadáveres que o País não esquece.
 

Atualizando a tendência ou possibilidade de os fatos repetirem-se com o novo “acidente”, talvez seja interessante retomar discurso recente (dezembro de 2018) do presidente Jair Bolsonaro (redes sociais) quando criticou o que define como “indústria das multas ambientais.” Parece importante, ainda, destacar o desdém do presidente em relação a umas multa por pesca ilegal, em Angra dos Reis (2012). É preciso sublinhar o recuo do órgão em relação a sua aplicação a partir de ato de 20 de dezembro de 2018, assinado pelo então presidente Temer.
 

Bolsonaro critica licenças ambientais

Ainda no site Brasil 247, lemos que o presidente  sempre foi um crítico do que chama de “indústria das multas ambientais”, e nunca fez questão de esconder seus posicionamentos em favor da redução das barreiras legais para garantir a preservação ambiental. Em dezembro do ano passado, já eleito, chegou a dizer que há “capricho” por parte dos fiscais do Ibama e que a licença ambiental atrapalha a execução de obras de infraestrutura. As afirmações podem  provocar reflexão importante pois alguns estudos apontam  que há mais de 400 barragens de rejeitos no território mineiro, e que 50 delas  apresentam riscos, sem  garantia de estabilidade. O número não coincide com o publicado em reportagem da BBC Brasil, que menciona 300 barragens inseguras. Gaúcha ZH, em matéria de 19 de novembro de 2018, lista  45 barragens com estrutura comprometida no País, a Barragem 1 da  Mina  Córrego do Feijão, em Brumadinho, não está listada. Em Minas, a lista a;ponta: Barragem Mina Engenho, Barragem II Mina Engenho, Barragem B2 (MG), Barragem B2 Auxiliar, Água Fria.

Segundo Bolsonaro, “o Ricardo Salles  é uma pessoa que segue a lei. Não tem ao seu lado aquele tratamento xiita na questão ambiental. E o que nós queremos dele? Que cumpra a lei. O que tivermos de errado, que achar que está um exagero, vamos enviar projetos para a Câmara para que se mude a lei”, disse o presidente, em uma rede social.

“E essa questão ambiental, quando se fala em licença ambiental, e é obrigado a derrubar uma árvore que ela está ameaçando cair. É uma dificuldade para conseguir essa licença. E toma multa caso derrube essa árvore sem a devida licença e autorização para tal. Então essa questão de licença ambiental atrapalha quando um prefeito, governador, presidente, quer fazer uma obra de infraestrutura, uma estrada, por exemplo, quer rasgar uma estrada, quer duplicar. São problemas infindáveis. Isso acontece muito na região amazônica”, criticou o presidente. 
 

Lama pode chegar ao São Francisco

A lama da Barragem de Mina Córrego do Feijão, rompida no início da tarde desta sexta-feira (25), pode alcançar o rio São Francisco se nada for feito, alerta o membro da coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) Joceli Jaison Andrioli. “Nosso temor é que, a exemplo do desastre de Mariana, onde a lama percorreu 700 quilômetros até o oceano, o desastre de Brumadinho alcance o Rio São Francisco”, declarou. A estmativa é de que a lama chegue a atingir 19 municípios (Betim, Brumadinho, Curvelo, Esmeraldas, Felixlândia, Florestal, Fortuna de Minas, Igarapé, Juatuba, Maravilhas, Mário Campos, Morada Nova de Minas, Papagaios, Pará de Minas, Paraopeba, Pequi, Pompéu, São Joaquim de Bicas e São José da Varginha).
 

Outro motivo de tristeza para a nação está nos mais de 200 desaparecidos, número estimado até o final da tarde de sexta-feira (25) e confirmado pelo Corpo de Bombeiros, que havia computado, até então, outras quatro pessoas feridas. Já nos cálculos do presidente da Vale, em entrevista coletiva, cerca de 300 empregados estavam trabalhando e 100 deles estão oficialmente desaparecidos.

 
 

 
 

Leia mais na Agência Brasil:
Bombeiros estimam cerca de 200 desaparecidos após barragem se romper

Leia mais no Brasil de Fato:
Onda de lama do Vale deve atingir 19 municípios de Minas Gerais
Minuto a minuto. Acompanahe a cobertura sobre o rompimento da barragem em Brumadinho

 

Em reportagem de de Leonardo Fernandes para o Brasil de Fato, o biólogo Renato Ramos alerta: Embora a quantidade de rejeito de mineração vazada da barragem localizada no município de Brumadinho, região metropolitana de Belo Horizonte (MG), seja menor do que a despejada sobre o Rio Doce em dezembro de 2015, os danos socioambientais serão grandes

Ramos é responsável por um estudo, em parceria com o geólogo Sófocles de Assis, e que aponta que 19 municípios mineiros devem ser atingidos pela onda de lama. Segundo os pesquisadores, é possível que a pluma chegue até a barragem de UHE Retiro Novo, próximo a Três Marias.

Ainda que o volume de rejeito de mineração vazada da barragem de Brumadinho,  região metropolitana de Belo Horizonte, seja menor do que o volume derramado no Rio Doce em 2015, os danos socioambientais serão muito graves. Considere-se, ainda, a tragédia humana representada pelo número de desaparecidos.

Ao Brasil de Fato, os especialistas afirmaram que já vinham trabalhando no estudo das consequências do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, e por isso puderam elaborar rapidamente um prospecto do impacto dessa nova tragédia. Esses estudos podem, por exemplo, evitar que a lama chegue ao Rio São Francisco, provocando um dano ainda maior.

“A gente está pensando nesse momento que uma medida para conter o fluxo da lama é fechar a barragem de Três Marias. Ali tem um reservatório muito grande e talvez a quantidade de água que existe ali depure a lama, segura ela, que seria depositada no leito do reservatório. Isso ajudaria a não impactar o restante do Rio São Francisco”.


 
 

Rio de Lama relembra Mariana

O filme, em Realidade Virtual, de Tadeu Jungle, retrata os sobreviventes da maior tragédia ambiental do Brasil com delicadeza e melancolia. Trata-se de um documentário de curta-metragem (9’34”) ,em Realidade Virtual, sobre o rompimento da barragem da Samarco em Mariana, MG, em novembro de 2015. O filme mostra o que restou da vila de Bento Rodrigues e contrapõe a paisagem arrasada com as alegres memórias de seus moradores.
Diretor: Tadeu Jungle. Produtores: Marcos Nisti>Rawlinson Terrabui>Tadeu Jungle. Realização: Academia de Filmes>Beenoculus>Maria Farinha Filmes.

 
 

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