Início de noite em um bairro de Porto Alegre, em sorveteria em frente à igreja onde se nota certa movimentação ao pé e ao alto da escadaria. Um casamento previsível como tantos outros.

Casamento ostentação: notas marginais
Carlos Roberto Winckler*

[Casamento ostentação: notas marginais]
Padrinhos e madrinhas em grande número, devidamente uniformizados. Homens em trajes pretos, mulheres com vestidos cuja cor parece evocar forro de caixões. Premonições? O noivo aguarda a noiva a conversar.

Cabelo batido na nuca, um topete, ao que parece, carregado de spray fixador. Essas coisas de barbershop, só Deus sabe.

Mas vamos ao que importa. A chegada da noiva em limusine que ocupa toda frente da escadaria. O desembarque da equipe de produção e fotógrafos. A correria de profissionais da vaidade alheia.

Os ainda felizes nubentes seriam essas celebridades ao gosto da época? A consagração teria o sentido de selar algum pacto da oligarquia provincial, tradicional ou recém-chegada?

Limusines, por vezes, lembram mafiosos. Mas qual a diferença em tempos bolsonaristas? A noiva aguarda no carro para frisson de espectadores externos a perguntar se a maquiagem se mantinha incólume. Um pequeno grupo ao pé da escadaria aguardava impaciente a entrada da noiva enquanto fotografava os padrinhos/madrinhas que se perfilavam.

A noiva finalmente sai, ao que parece,
com a maquiagem incólume ao subir
a escadaria e tirar as fotos que a
eternizarão em algum álbum.


Convidados, meros transeuntes, criadagem doméstica a admirar a glória dos senhores? Os últimos a entrar, discretamente, antes da noiva? Ficam de fora. A noiva finalmente sai, ao que parece, com a maquiagem incólume ao subir a escadaria e tirar as fotos que a eternizarão em algum álbum.

Do outro lado da calçada comentários. Morador de rua (conduzindo um carrinho cheio de trastes recolhidos), sobre as madrinhas: “– não são mais virgens.” Vestígios de sonhos eróticos. Outro pobre lumpem passa, gargalha e diz algo sobre a limusine. Uma senhora comenta na esquina: “– quanto desperdício , quantas cestas básicas possíveis.” Um guardador de carros: “– é bom ser feliz, mas depois se amontoam.”

Pouco importa. Antes, as elites, ou aqueles que pretendiam ser vistos como tal, casavam para ser vistos pelo populus minus. Isso fazia parte da legitimação.

Hoje preferem se olhar no espelho. Se celebridades midiáticas, revistas tipo Caras são suficientes. Bilionários brasileiros, segundo a revista Forbes, são duzentos. Passam ao largo dessa breguice. Alguma capela muito exclusiva na Provence basta. Para aqueles recém-chegados e nem tão ricos bastam uma igreja bem enfeitada na província e uma limusine bege. Cuidem-se. A malta anda inquieta.

*Sociólogo, professor
aposentado pela FEE

Leia também: