Combate sobre ruínas
Carlos Roberto Winckler

Combate sobre ruínas – Há uma escalada do bolsonarismo quanto à violência, articulada ao desmonte acelerado do Estado. A declaração de Bolsonaro ameaçando, com requintes  de tortura psicológica,  o presidente da OAB, dizendo saber o que aconteceu  com seu pai, desaparecido em 1974, após ter sido preso pelo Doi-Codi, é um passo gravíssimo.

A licença para matar há horas foi dada com o conjunto de declarações , omissões e negligência dos poderes constituídos. Todos sabemos quem tem sido fisicamente atingido: ativistas sociais, mulheres , gays, negros, indígenas. As ameaças se aproximam das classes medias esclarecidas urbanas. Prepara-se, nas entrelinhas, o cenário do que aconteceu em algum momento em El Salvador, Guatemala, na Argentina com a Tríplice A, em períodos pré-candidatura aberta.

A licença para matar
há horas foi dada com
o conjunto de declarações,
omissões e negligência
dos poderes constituídos.

O silêncio de eleitores de Bolsonaro, a crise econômica com sua legião de desempregados, as revelações divulgadas  de crimes continuados pelo The Intercept, a queda nas pesquisas… levaram à radicalização do núcleo duro bolsonarista. Essa radicalização lembra – com as devidas ressalvas – discurso de Goebbels em 1944 , quando conclamava guerra total, dirigindo-se a fanáticos fascistas.

Não temos, necessariamente, um clima de derrota do golpe, mesmo porque Bolsonaro parece ainda contar com razoável apoio, apesar da erosão. E as elites colonizadas o apoiarão enquanto for funcional a construção de um estado associado aos EUA – um Porto Rico com elefantíase como há tempos afirmo.

As ameaças contra Glenn de que poderá pegar “cana, a grosseria inominável contra o presidente do OAB, mostram um ponto de possível ruptura com o que resta de estado democrático de direito. Praticamente combatemos sobre ruinas. Não há mais como esperar. Às elites, se não se entregarem definitivamente à sedução da barbárie, talvez reste um arranjo do comando do Exército com o Congresso, caso ocorra resistência popular exigindo a expulsão de Bolsonaro e novas eleições. Esse último cenário difícil, sem dúvida. Mas política é incerteza.

Fora Bolsonaro!

Combate sobre ruínas

Professor de sociologia/
Pesquisador aponsentado pela FEE

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