Carlos Roberto Winckler - Conspirações anarquistas no aparato jurídico?

Carlos Roberto Winckler*

 

Chegou-me às mãos uma carta com graves revelações. Conspiração anarquista? Um falsificação? Segredos tenebrosos que vem à luz? Jogo duplo nesses tempos? O nome do autor tem traços que o denunciam como ligado a engrenagens estatais de espionagem. Revela certo acompanhamento da conjuntura e detalhes da luta intestina que se trava no interior do que resta do Estado Brasileiro. Solicito uma leitura cautelosa. Pois de acordo com o dito popular, onde há fumaça há fogo. Perdoem o lugar comum. Vamos à carta.

 

“O novíssimo anarquismo” 
Francisco Sicherheitstaat

 A República brasileira, nos últimos quatro anos, tem vivenciado os episódios da Operação Lava Jato, que parecia destinada a liquidar o patrimonialismo que infesta o Estado e confunde negócios públicos e privados. O primeiro experimento desse tipo de operação deu-se no chamado Mensalão na década passada. E que foi magistralmente resumido na frase da ministra do Supremo Rosa Weber: “não tenho provas , mas a doutrina me garante”. Mas ou menos isso. Nada como uma laureada com algum conhecimento periférico de doutrinas alemãs. A intenção explícita era afastar o perigo vermelho que, solerte, pretendia destruir os fundamentos saudáveis da República.

A combinação dessa operação com a chamada Lei da Ficha Limpa, ao fim e ao cabo, alertou setores liberais conservadores de que algo não batia muito bem. Nao podemos esquecer que Fux e Fachin buscaram apoio para suas nomeações junto a movimentos sociais. A manifestação da Comissão de Direitos Humanos da ONU exigindo a participação de Lula nas eleições entornou o caldo de vez. Talvez aí esteja a razão de tantas viagens aos EUA. Fontes oficiosas, as quais não me atrevo (ainda) a revelar, confiaram-me, apoiados em farta e minuciosa investigação, que desde a vigência da Constituição de 1988, uma peça, na verdade, liberticida, ocorria  sutil infiltração anarquista no coração das instituições por meio de concursos públicos.

Jovens juízes e procuradores – muitos de origem modesta – galgaram altos postos da burocracia e de lá começaram a destruir o Estado com o propósito de instalar no País a República Federalista Anarquista ( REFEAN), quase homóloga àquela outra revelada em um momento imprudente do Cabo Dalciolo em debate recente: a URSAL. Ingenuamente, setores da esquerda não perceberam a sutileza desse movimento. Como diziam setores mais ortodoxos moscovitas e pequinenses nos anos 60, há que se acirrar contradições, provocar insatisfações e, no limite, trancafiar seu líder inconteste em masmorra.

Esses conspiradores são mestres da camuflagem: frequentam igrejas pentecostais, recebem prêmios da Globo, frequentam cursos da CIA e do Departamento de Estado nos EUA, simulam uma boa vida apropriando-se de fundos públicos via auxílio moradia e outras prebendas. Arquivam processos dos chamados golpistas. Realizam ações diretas, bem diversas das ações diretas do início do século XX. Utilizam com maestria doutrinas jurídicas interpretadas segundo as circunstâncias. São perigosíssimos e bem mais eficientes do que a esquerda com seus métodos tradicionais de oposição.

Mas ocorreu um movimento que revelou seus propósitos. O incidente do solta , não solta Lula. A confusão em torno das competências selou seu destino, pois trouxe a plena luz do dia a conspirata, digna de sociedades secretas do século XIX. Há que se dar um limite a suas ações. Para tanto os organismos de segurança começam , com os devidos cuidados, a afastá-los de determinados processos, a submeter alguns à Corregedoria…, outros serão aposentados. Mas nada que signifique perda de proventos, mesmo porque prestaram serviços relevantes ao País, em que pesem suas intenções reais.

Finalizando esse breve relato, um quase relatório, espero que a esquerda legal , em suas diversas ramificações, não venha um dia a prestar homenagem a esses conspiradores que, provavelmente, se inspiraram nos atos de infiltração de agentes castristas na valorosa comunidade cubana exilada em Miami.”

 

Conspirações anarquistas no aparato jurídico?

 

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* Carlos Roberto Winckler é sociólogo
professor de Sociologia 
pesquisador  aposentado da FEE