Deboche, luta de classes e as hemorroidas presidenciais
Carlos Roberto Winckler

Hemorroidas presidenciais, deboche e a luta de classes

Passada a expectativa em torno da divulgação do vídeo de reunião de Bolsonaro com ministros e altos dirigentes publicizada dia 22.05, talvez, se possa avaliar, em alguma medida, o ocorrido. No absoluto calor da hora muitos se deixaram seduzir pela tese do caos sem sentido, evidenciada pela desordem da reunião, ou que a divulgação foi uma excelente oportunidade de Bolsonaro recuperar terreno perdido. A reunião, ao cabo, serviu como peça de propaganda.

Não  foi bem uma reunião de trabalho, foi bem mais oportunidade de Bolsonaro repetir algo já sabido desde a campanha ou no decorrer deste ano e meio. Qual a novidade, mesmo depois da troca de oito ministros? O circo reunido, onde todos (ou quase todos), sem qualquer pudor, expuseram as entranhas do fascismo tropical. Isso, sem dúvida, chocou, mas, paradoxalmente, renovou, dada a crueza, o espírito de deboche Nacional. Existe algo mais corrosivo? Tiranos odeiam humor. Apenas Bolsonaro contabilizou 29 palavrões, secundado por áulicos, preocupados em mostrar serviço a qualquer preço.

Quase todos expuseram algo de seu setor, em geral platitudes ou evidências de que lá apenas se encontravam defendendo o seu e de outros, ocultos. Encontro de  batedores de carteira, negocistas ultraliberais dispostos a liquidar o Estado, de perplexos (ao menos um) que mal acreditavam no que ouviam. Outros faziam ar de paisagem, oscilando entre concordância canina ou anotação de algo. Há dúvidas: jogo da velha, palavras cruzadas? Outra suplicava por se colocar em algum documento os valores da sociedade cristã, sob ameaça  iminente.  Em meio a isso, Bolsonaro defendia seus filhos, ameaçava e ponderava sobre as relações entre  hemorroidas e liberdade, pois alguém (os governadores, os prefeitos, os comunistas?) as cobiçava em meio à crise da pandemia. Eis uma relação nunca pensada por Bobbio.


No caos, destacaram-se duas linhas interligadas

1. A defesa do ultraliberalismo de Guedes, esse senhor tão tímido e aparentemente educado, que não  hesitou,  em meio a um porra, na defesa raivosa das privatizações, a  dizer que o Banco do Brasil estava pronto a ser liquidado. Isso depois de, ex cathedra, admoestar Braga Neto, que estava à direita de Bolsonaro. Era uma ignorância invocar o programa Pró  Brasil, um esboço de intervencionismo estatal, como tendo semelhanças ao New Deal de Roosevelt, teorizou. Aquilo evidenciava ignorância a ele, um leitor que tudo entende de reconstrução de países  pós-crises. Braga Neto encolheu-se. Nada como  um carteiraço intelectual de um farsante, além de mitômano, pois um futuro radioso nos aguarda,  com o primado das iniciativas privadas. Na mesma linha, explicitando o desejo de burlar  a qualquer preço as leis ambientais, Ricardo  Salles.

2. Talvez por causa de suas  hemorroidas libertárias, Bolsonaro, que reconhece sua ignorância sobre economia –  essa sapiência é delegada a  Guedes –  centre ação naquilo que denomina política: mobilizar permanentemente suas bases – um dever de todos que estão no governo.  Um governo defensor da Família, de Deus, do Livre Mercado e do Armamento. Fiel e entusiástico defensor: Weintraub que não  hesitaria em mandar prender os ministros do STF, vagabundos (sic);  secundado por Damares que vê conspirações para contaminar indígenas com o propósito de culpar o presidente, abortistas e feministas infiltradas no governo, boicotando os mais caros valores da civilização cristã.

Mas o que  significa Armamento? Esse tema é caro a Bolsonaro desde a campanha eleitoral e ele o tem se expressado na flexibilização ao acesso e controle das armas. O tema retornou no contexto de se resistir aos governadores  e prefeitos,  que em meio à pandemia seguiram o mínimo estabelecido pela OMS. Mobilizar é defender, armado, se for o caso, o direito de abrir o comércio e o direito de ir e vir.
 

Teich,  perplexo, conseguiu esboçar o mínimo sobre hospitais e equipamentos. E o assunto morreu por aí.

Povo armado jamais é escravizado segundo Bolsonaro. Ideologização  máxima da pandemia a serviço do fascismo tropical. Na reunião não  se tratou da pandemia e de políticas de coordenação necessárias. Teich,  perplexo, conseguiu esboçar o mínimo sobre hospitais e equipamentos. E o assunto morreu por aí.

Moro, impassível, pronunciou duas frases sobre a necessidade de constar no documento, resultado da reunião, alguma coisa sobre combate à corrupção e à criminalidade. Estava ciente de seu destino. Tratava em seu silêncio de pensar como fazer do limão, limonada. Ter provas de ato indevido de Bolsonaro, que ao procurar interferir na polícia federal, visava a proteger seus filhos. Pelo dito na reunião, em meio a impropérios e ameaças,  há indícios, não  exatamente provas. A ver.

Quanto aos militares presentes: Braga Neto aparentemente submisso, mas sabe-se lá o que guardou no fundo d’ alma, depois da chamada de atenção de Guedes; Mourão uma esfinge a garatujar e a se coçar. Os militares parecem,  momentaneamente, em paz no gozo de quase três mil cargos no governo. Como enfrentarão a crise sanitária e econômica  que se avizinha?  A conta será debitada, também,  nas suas costas.

A Globo, expressão mais visível das dissensões golpistas, enfatizou o ambiente chulo, deixando de lado o projeto econômico de Guedes, com o qual as elites coloniais concordam.

A publicização  do vídeo realizou-se sob manobra diversionista do general de pijama Heleno, do GSI, que procurou conturbar com ameaças o ambiente nas horas anteriores à divulgação, a pretexto de um ato burocrático de consulta do ministro Celso Bastos ao procurador geral, provocado por denúncia crime de setores da oposição, sobre a possibilidade de requisitar o telefone particular do presidente. Caiu no vazio.

A Globo, expressão mais visível das dissensões golpistas, enfatizou o ambiente chulo, deixando de lado o projeto econômico de Guedes, com o qual as elites coloniais concordam. A liturgia do cargo tem, efetivamente, sua importância. É  expressão de certo grau de civilidade e de contenção das paixões.

O fascismo, na sua fase destrutiva, quebra essa dimensão que, caso transborde os limites de um mínimo de racionalidade, atrapalha os negócios, que não  podem ser efetivados na  mobilização permanente, dada sua instabilidade. Nesse caso, talvez abra espaço apenas para negócios fundados na ordem miliciana da violência.

À medida que o vídeo ou trechos  dele descerem  às camadas populares haverá  nova queda

A liturgia é respeitada pelas classes populares. No popular, o exemplo vem de cima. O vídeo escandaliza, e muito, por isso. Não se espere crescimento de prestígio de Bolsonaro. Ainda não  cairá como se  esperaria, mas as pesquisas mais recentes mostram a queda de sua aceitação (por volta de 25%). Permanece  razoável a base de  apoio,  mas à medida que o vídeo ou trechos  dele descerem  às camadas populares haverá  nova queda. Indícios surgiram nesse fim de semana em  Brasília: os fascistas  de sempre compareceram  à manifestação em apoio a Bolsonaro, mas nada expressivo; em compensação, em ato popularesco, degustando hot-dog, foi vaiado, bateram panelas e gritavam: vai trabalhar, vagabundo! Carreata fascista em Porto Alegre foi obrigada a recuar por manifestantes, que impediam seu acesso à sede do governo estadual. Outros atos de oposição  vêm se realizando pelo País com os devidos cuidados sanitários.

No plano estritamente institucional, partidos de esquerda e 400 organizações da sociedade civil entregaram  novo pedido de impeachment – há 35 deles aguardando posição de Rodrigo Maia. E se espera decisão do STF sobre ato ilícito de Bolsonaro. Liberais conservadores,  pelo menos a  ponta de lança, preferem um desenlace com afastamento de Bolsonaro via STF, uma solução mais segura e controlável na perspectiva conservadora, ainda que a licença da Câmara seja necessária. Twitter de Fernando Henrique Cardoso insinua exatamente isso. Um jogo entre pares, fundamento desde sempre do conservadorismo brasileiro.  Mais elegante para os conservadores, como afirmo há tempos, seria a renúncia com garantias ao clã mafioso.

Nesse meio tempo, Bolsonaro procura garantir um mínimo de apoio junto ao Centrão, o setor pantanoso dos conservadores, recorrendo aos mecanismos do aluguel de fidelidades. Nas circunstâncias, o preço tende a ser superlativo. Na falta de opções, concretizará  ameaças em aventura golpista? Mas o que tem a  oferecer em troca senão o caos em uma conjuntura absolutamente adversa? Não  estamos em 88, pré “milagre econômico” que pouco durou. Os militares, de pijama ou fardados, parecem estar muito aquém das capacidades exigidas.

Assim estamos. Cansados, sem dúvida. Um passo além do desespero e do ceticismo imobilista, pois tem-se o humor, senão o deboche, retomado, apesar do horror e do patético  explícitos no vídeo. Em meio à luta de classes, que nos foi destinada, apesar das hemorroidas presidenciais.
Agosto promete.

Hemorroidas presidenciais, deboche e a luta de classes


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*Sociólogo, professor
aposentado pela FEE