é fato que tenho minha opinião
dinarte albuquerque filho*

(É fato que tenho minha opinião)


“O mito da imparcialidade jornalística foi, há muito, desconstruído. Tornou-se tão inatingível e insustentável quanto o poder do povo nos modelos atuais de democracia.”

O cenário glocal é nada animador, mas estimulante. Para onde a atenção se volta, a dúvida se instala. Novos paradigmas são incorporados sucessivamente, num ritmo tão intenso que perdas referenciais demoram a ser percebidas. Dois exemplos: a crise climática e a gentrificação.

O termo surgiu no Reino Unido, durante a década de 1960, relacionado ao trabalho da socióloga Ruth Glass. Sugere o processo de transformação de centros urbanos, onde moradores das camadas mais ricas ocupam o lugar de comunidades de baixa renda. Essas são questões que preocupam aqueles que se importam com o outro. Porém, esses são dois temas guarda-chuva – sob eles, há muito o que se conversar e sobre como lidar com as informações que recebemos instantaneamente.

Antes que o texto avance, lembro que o neologismo do início do texto foi difundido pelo sociólogo Roland Robertson, mas surgiu como estratégia mercadológica japonesa na década de 1980, e, em poucas palavras, significa marketing global com estratégias locais; serviu – e serve – para grandes corporações integrarem-se ao cotidiano de parte dos 8 bilhões de pessoas da Terra, inclusive vendendo a ideia de um mundo sustentável.

Fato versus opinião

Um exemplo da confusão em que estamos metidos é a tênue diferença entre fato e opinião. É fato que as queimadas para transformar a vegetação nativa em áreas de pasto, na Amazônia, provocaram os incêndios que destruíram cerca de 30 mil km2 de floresta nativa – além da ação planejada por um grupo de sindicalistas, produtores rurais, comerciantes e grileiros, posta em prática no dia 10 de agosto de 2019 e que ficou conhecida como “dia do fogo”.

É fato, também, que a Austrália queima devido a causas naturais – o tempo quente e seco não é novidade por lá, mas foram piores nesta temporada, e as autoridades alertam que a série de incêndios florestais ainda está “longe de terminar”, segundo notícia recente; paradoxalmente, algumas regiões sofrem com tempestades… de granizo.

Outro fato que impacta o cotidiano de milhares de pessoas e gera um dilúvio de opiniões são as enchentes em grandes centros urbanos. Uma das razões para o acontecimento é a impermeabilização do solo, derivada das construções residenciais, comerciais e industriais; outra, é a pavimentação asfáltica de ruas e calçadas, que bloqueia a absorção natural do volume de chuva pelo solo. Somam-se ao problema as ocupações de áreas em que a mata ciliar (aquela que circunda rios, córregos, riachos, lagos etc.) é subtraída frente ao crescimento dos núcleos urbanos, aos depósitos de lixo e de entulhos de construção, à canalização mal planejada e à posterior retificação.

Ainda sobre os fatos citados, inúmeras opiniões, algumas mais de acordo com a realidade, outras embasadas em posições ideológicas ou na ignorância mesmo. Muito se opina, aliás, em palestras e pelas redes sociais, sobre educação, sobre atitudes ante a natureza e sobre religião. Fatos e opiniões novamente se entrelaçam na Babel tecnológica. Envolvidos ideológica e/ou emocionalmente, milhares emitem suas opiniões. Muitas, falsas ou verdadeiras, estabeleceram-se “à força de repetições e, portanto, de hábito”, como já percebera, incrédulo, o poeta italiano Giácomo Leopardi.
Portanto, é preciso cuidado.

Multidão

É fato, também, que a população de rua cresce a olhos vistos. Não precisa ser estatístico, não precisa ser sociólogo, não precisa ser economista. Basta ser humano. Sob marquises, quase sem exceção, sob viadutos, em qualquer estação, perambulando pelas calçadas ou tomando sol nas praças das cidades, existem histórias de vida que permanecem desconhecidas, pois quem teria condições de contar teve seus vínculos sociais interrompidos por diferentes formas de exclusão.

Em Caxias do Sul, são mais de 500 pessoas; na capital gaúcha, em torno de 3 mil; em São Paulo, cidade-referência, aproximam-se dos 25 mil (dados de jornais e do Censo 2019). Porém, apesar das evidências, a invisibilização dessas pessoas é intencional. E, já se afirmou, também racista.

As opiniões sobre causas e consequências deste cenário não variam muito, pois nem tantos se ocupam em refletir profundamente sobre o problema. No mais das vezes, podem ser conceitualmente enquadradas como “opinião pública”, a popular maria-vai-com-as-outras. Conforme Rabaça e Barbosa, no Dicionário da Comunicação (2001). “A opinião pública manifesta-se e modifica-se coletivamente, sem ser necessariamente condicionada pela aproximação física dos indivíduos, e não implica o conhecimento do assunto sobre o qual se opina”. O grifo é meu.

Ao mesmo tempo, o mito da imparcialidade jornalística foi, há muito, desconstruído. Tornou-se tão inatingível e insustentável quanto o poder do povo nos modelos atuais de democracia. Se nem mais a ciência pode ser considerada fonte da verdade, se a organização da sociedade está submetida ao desmonte do Estado de bem-estar social e ao aumento da concentração do capital e da renda – paralelamente à expansão insustentável do crédito ao consumo e à exploração não sustentável das matérias-prima –, não há como o indivíduo não se posicionar.

Indivíduo e política

Em tempos de “modernidade líquida” (Bauman), de “hipermodernidade” (Lipovetsky), em que vivemos a exacerbação de características sociais como o individualismo, o consumismo e a ética hedonista (o prazer como estilo de vida), a fragmentação do tempo e do espaço, opiniões sobrepõem-se a fatos.
O sociólogo espanhol Manuel Castells afirmou, em palestra na 10ª edição do ciclo Fronteiras do Pensamento (Porto Alegre, 2016), que o indivíduo não se sente mais representado pela classe política. Nada a ver com a existência ou não de fraude em determinado processo eleitoral; é sobre a representatividade de quem ocupa um cargo executivo, em termos gerais.

Felizmente, com a possibilidade de auto-organização, há chance de uma intervenção real dos indivíduos no espaço público. Em outra ocasião, Castells disse: “Com um celular em mãos, qualquer pessoa pode transmitir informações. A truculência policial, por exemplo, está sendo revelada graças aos cidadãos que vigiam esses fatos espontaneamente.”

Mesmo submetido aos interesses e às desigualdades em todos os aspectos sociais, culturais e biológicos (os tipos de vida, a detenção dos poderes, as diferenças na hierarquia dos privilégios, os comportamentos culturais, a diferenciação segundo os gêneros), o indivíduo tem motivos suficientes para questionar a própria liberdade de expressão; antes um direito, garantido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), hoje instrumento contaminado por diferentes opiniões que circulam pelas redes sociais, que existem para comunicar, mas também para fazer qualquer coisa.

Direitos


Nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, quando foram estabelecidos Direitos, a sociedade passou a conviver com o fenômeno da mediocrização. Hoje, porém, o que mais importa é o resultado, mas o que verdadeiramente temos é a simulação do resultado. Por serem malfeitos, os resultados tornam-se simulacros, que são mais atraentes, conforme o filósofo Jean Baudrillard (1929-2007). Como vivemos neste estado/estágio, é sintomático que reine a mediocridade e é por isso que se torna necessário reivindicarmos nossa liberdade, a fim de desmontar a eficiência de um sistema que insiste na mediocracia. De fato, não é pouca coisa.

*Dinarte Albuquerque é jornalista, mestre em literatura pela UFRGS

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