Entre automóveis: dinarte albuquerque filho
dinarte albuquerque filho*

Entre automóveis, ao caminhar pelas ruas da cidade, cheguei a pensar que, a pé, de Lourdes a
São Pelegrino, fosse um destino qualquer

Porém, os tempos, embora necessitem de poesia, estão difíceis, e meus pés já não me levam tão longe, pelo menos durante a noite. Não só pela tão proclamada violência dos homens, não só pela escassez de tempo para o devaneio e a contemplação. Muito mais pelos perigos com que me deparo quando, absorto em pensamentos, tenho que atravessar as ruas, mesmo que os sinais indiquem que o direito de passagem é meu.

No ano passado, 2018, circulavam pelas ruas de Caxias do Sul mais de 305 mil veículos – carros, comerciais leves (picapes e furgões), caminhões e ônibus –, número referente àqueles registrados na cidade, o que significa mais da metade da população, que era de pouco mais de 504 mil pessoas. Fora os que estão de passagem, pessoas e carros. No Brasil, estima-se até o momento, algo em torno de 44 milhões e 600 mil veículos, e se calcula que devam ultrapassar a marca dos 47 milhões até 2020.

Refiro-me aos cheiros das
padarias, das estações, das
fragrâncias mais suaves

Esses números devem ser bons para alguém. Números sempre são bons para alguém. Mas números também são preocupantes, na medida em que vemos a cidade se transformar em um grande entrevero em determinados momentos do seu dia; preocupam porque vemos as pessoas por trás dos volantes se tornarem violentas, mesmo que sejam pequenas violências, aquelas sobre as quais a gente costuma comentar, “também, quem não ficaria puto da cara com a situação!”; “ah, esses pedestres!”; “pôrra, não olha por onde anda?!”; preocupam porque os cheiros da cidade já não estão de acordo com os cheiros da natureza (nem entro no mérito do equilíbrio do meio ambiente, refiro-me aos cheiros das padarias, das estações, das fragrâncias mais suaves). E a vida segue.

O que costuma me chamar a atenção nisso tudo é o descaramento de certos motoristas. Eu sou pedestre, mais por convicção do que por qualquer outra razão. Tenho carteira de habilitação categoria C, vencida e não renovada – poderia até dizer que já nem sei direito onde a guardei, mas seria apenas licença poética.

Esses números devem ser
bons para alguém. Números
sempre são bons para alguém.

Na verdade, tenho a certeza de que, se voltasse a dirigir, deixaria de ver muitas coisas nos meus caminhos, perderia a chance dos encontros fortuitos e das alegrias que tenho quando me distraio ao caminhar entre automóveis, como me acontecia nas vezes em que estive na condição de condutor. E que, na maioria das vezes, não foram nada agradáveis, diga-se de passagem.

Só que às vezes me indigno com os motoristas da cidade. Nem sempre com aqueles que ultrapassam os sinais fechados para eles, numa urgência que só se explica pela ansiedade que toma conta de todos nós nos últimos anos. Explica, mas não justifica.

Às vezes vejo motoristas fazerem conversões à esquerda em locais onde a pista é separada por fios duplos amarelos e preenchidos por sinalizadores, só para garantirem seu lugar no drive-thru aqui perto de onde moro. Pior: como há fila, principalmente nas noites de domingo, o carro do motorista que fez a conversão fica “atravessado” na pista e, quando outro veículo se aproxima, em seu fluxo normal, ele parece não se dar conta do gesto arbitrário.

Na verdade, tenho a certeza de que,
se voltasse a dirigir, deixaria de ver
muitas coisas nos meus caminhos

Calmamente, aguarda que a fila ande ou se atravessa um pouco mais, agora pela calçada, que já está em parte tomada pelo carro da frente, que ainda não conseguiu entrar no estacionamento. Segundo me informa uma instrutora de CNH, a conversão é proibida, “mas todo mundo faz”.

Outro dia, vi alguém que, não direi que é meu amigo ou alguém próximo, mas que conheço e já o escutei reclamando de algumas coisas “erradas” que ocorrem por aí. Em Caxias, no país e no mundo. E ocupava o lugar dos pedestres, como se nada houvesse de errado, soberano. Por essas e outras, continuo meu caminho entre automóveis e me ponho a pensar, procurando não me irritar demais pois, logo mais, pretendo chegar em casa livre desses pensamentos. Acho incrível a capacidade que as pessoas têm (e não me excluo) de enxergar problemas causados pelos outros e não se darem conta dos problemas que elas causam, por mínimos que sejam. Sempre os outros, nunca eu. “Olha só aquele desastrado”, “olha aquele incompetente”, “veja só que sujeito abusado”!

No pouco do caminho que me resta, nestes momentos, me vem à mente uma série de possibilidades de argumentar com aquela pessoa sobre o que ela está fazendo – como se eu, repito, também não incorresse no erro. Sei que estou conversando comigo, argumentando comigo e procurando, quando voltar a me deparar com isso, não repetir-me ou reproduzir o que vi e como que não concordei.

Acho incrível a capacidade
que as pessoas têm (e não me excluo)
de enxergar problemas causados pelos outros

Procuro, atento, evitar a crítica quando sei que minha falibilidade será posta à prova logo na próxima esquina. Mas fico nervoso, acredite, quando ouço pessoas que ajudaram a criar a atual sociedade em que vivemos continuam a alimentar os monstros que decidem nosso presente e minam nosso futuro, a disseminar as vibrações mais negativas que já senti, e, aos poucos, sentirem-se como “donas da verdade”, como se a verdade se encerrasse numa opinião, muitas vezes reproduzida sem a mínima reflexão. As pessoas que reduzem tudo sob e sobre as quatro rodas, escravas de um mercado pra lá de sedutor, provocam-me sentimentos controversos.

Está certo que a cidade não é muito aprazível para a flânerie. Aliás, nem boulevards temos; caminhamos sobre calçadas mal-cuidadas, cheias de imperfeições e perigos. Às vezes maiores do que os que nos esperam ao atravessarmos as ruas, à mercê de motoristas imprudentes e de nossas desatenções.

Mas é preciso caminhar, para que se possa apreciar a intrínseca beleza da cidade, à noite, na “decantada imagem do colar elétrico de globos brancos enfiados na perspectiva reta das ruas” (ALMEIDA, 2004, p. 199); ou a beleza que resta, visível, durante o dia, com segurança, sem que seja preciso retornar aos carros-de-bois, já que desde o início do século passado os automóveis se tornaram tão letais e incômodos quanto eficazes.

Referências

ALMEIDA, Guilherme de. Pela cidade. Edição preparada por Frederico Ozanam Pessoa de Barros. São Paulo: Martins Fontes, 2004. Coleção Contistas e Cronistas do Brasil, v. III.

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*dinarte albuquerque é jornalista, mestre em literatura pela UFRGS