Um romance sobre o bolsonarismo? Recém-lançado, Essa Gente é um texto que corajosamente procura registrar o vivido nesse ano que nos atingiu em cheio. Vivido que destruiu certezas, ilusões de toda ordem e que obriga a repensar profundamente nosso país.

Essa Gente
Carlos Roberto Winckler*

[Essa Gente]
Mas não se trata de romance onde acontecimentos e personagens estão perfeitamente encadeados, mesmo porque estamos colados aos acontecimentos que nos atropelam e nos angustiam. Trata-se de um romance da barbárie, quase um gênero, que nos perturba desde os anos 70.

Basta mencionar-se Ivan Angelo autor de A Festa, prêmio Jabuti de 1976, que, a partir de diferentes ângulos, descreve as agruras de Marcionilio, um nordestino expulso de uma estação.

A principal personagem de Essa Gente é Manuel Duarte, um escritor de certo êxito, que enfrenta uma crise de criação com repercussões na vida pessoal.

Em termos temporais praticamente tudo se passa em 2019. Se em A festa a personagem Marcionilio mal aparece, a não ser pela visão de outros, Manuel Duarte é o centro da narrativa e percorre diferentes cenários do Rio de Janeiro. Morador do Leblon, herdeiro da classe média alta, frequenta festas da lumpenburguesia, flerta com moradores das favelas próximas a pretexto de buscar material que o inspire, enquanto sucumbe economicamente e devaneia em sonhos/pesadelos eróticos.

Toda narrativa se dá por fragmentos, onde emerge nossa barbárie cotidiana de violência contra os pobres (econômica, racista, cultural), mas também a violência intramuros das classes médias na reprodução em escala do autoritarismo.

Toda narrativa se dá por fragmentos, onde emerge nossa barbárie cotidiana de violência contra os pobres (econômica, racista, cultural), mas também a violência intramuros das classes médias na reprodução em escala do autoritarismo. O cúmulo da opressão aparece lateralmente com jovens talentosos das favelas castrados por pastor pentecostal que abastece o mercado promissor de música gospel.

Helicópteros sobrevoam os morros atirando aleatoriamente. O olhar de Manuel Duarte é distanciado, quase sem emoções, quase fatalista, o que nāo o impede de sentir mal-estar ao ouvir o Presidente no noticiário, única menção a Bolsonaro, mas sem mencioná-lo.

No texto não há considerações sociológicas, históricas, há antes de tudo um mal-estar marcado, por vezes, por um humor negro reconhecível por leitores da classe média ilustrada. Não há lições grandiloquentes nesse ambiente difuso de horror, onde pontos de fuga podem ser a depressão, o suicídio ou a fuga do país.

Não se espere alguma lição ou um discurso consolador. O bolsonarismo aparece como um estado de espírito, socialmente espraiado. A canção de Orfeu Negro soa irônica em meio ao caos:
Manhã, tão bonita manhã
Na vida uma nova canção…
Canta o meu coração
Alegria voltou
Tão feliz a manhã deste amor
Combatemos sobre ruínas?


*Sociólogo, professor
aposentado pela FEE


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