A Enfermaria Militar de Jaguarão/RS é uma ruína triste, em estilo neoclássico, localizada no Cerro da Pólvora. A formação militar da cidade tece relações com a localização fronteiriça desde sua fundação como acampamento militar, ainda no início do século 19. Do mesmo modo, o passado charqueador do Rio Grande do Sul tem peso na formação de uma elite latifundiária local, detentora de poder econômico e político, via fornecimento de gado para a produção de charque em Jaguarão e cidades próximas, como Pelotas/RS.

 

 

Enfermaria Militar

Enfermaria Militar de Jaguarão. Fonte: Unipampa

 

Famílias como a de Bento Gonçalves da Silva (1788-1847) têm laços de parentesco com membros da elite de Jaguarão, cujo capital social permitiu acesso à carreira militar, aproximando o civil e o militar no município. Construída entre 1880 e 1883, a Enfermaria Militar teve como pacientes os oficiais do exército e familiares de militares da região da campanha, no contexto de pós-abolição.

 

Tais elites contribuíram para uma série de dinâmicas sociais, na implantação de grandes obras que dessem conta de instalações como quartéis e hospitais, em conformidade com inovações nacionais e internacionais. Ao mesmo tempo, casarões e prédios públicos do centro da cidade reproduziam as transformações da arquitetura do período, processo paralelos à formação das periferias urbanas. O local de instalação da Enfermaria Militar era estratégico: no alto de uma coxilha, com visibilidade para o Rio Jaguarão e entorno, enquanto afastava os doentes do centro.

 

Abrigou salas de internação de oficiais, de cirurgia e de atendimento médico, farmácia, cozinha e local para guarda de serviço. Em 1915, foram acrescentados uma capela e um necrotério, configuração que se manteve durante o funcionamento. O prédio foi construído ao redor de um pátio interno, com amplas janelas e porão alto. Sólida construção de alvenaria conjugada com pedras extraídas de uma pedreira próxima. O estilo neoclássico contrastava com a natureza ao redor e permitia observar a cidade e o rio, que delimita a fronteira com o Uruguai.

 

A desocupação oficial do prédio ocorreu na década 1970. Dali em diante seria eventualmente escola e, segundo moradores, também prisão e espaço de tortura, durante a ditadura Civil-Militar no Brasil.

 

Fósseis recentes

Fósseis recentes. Fonte: Sílvia Schumacher

 

Após a desocupação oficial, o prédio passou a ser depredado: Telhado, forro e abertura foram arrancados. O governo Federal tentou vender a área, sem sucesso. Nos anos seguintes, a população ocupou o entorno do prédio para o lazer nos fins de semana. Esse movimento resultou na criação de uma praça, com bancos e brinquedos, investimento do poder público insuficiente para melhorarias no acesso.

 

Perto do prédio, nas paredes, uma série de inscrições gravadas na pedra presentificam existências que não querem ser esquecidas. Na Enfermaria Militar, camadas arrancadas desnudam uma polifonia de nomes, vidas e corpos cujos trajetos foram marcados pelo choque com o prédio, duro a ponto de cravarem ali a marca do encontro.

 

Em contraposição à retórica do abandono, é possível pensar presenças que mostram novos usos – campo para secar roupa em esquálidos varais que se levantam; pastagem para o gado de pequenos criadores ou para cavalos que arrastam carroças – como indutoras de lógica contrária à do Estado, que não salvaguarda seus bens culturais.

 

São muitas as testemunhas que não querem ser esquecidas

Orácio: testemunha silenciosa. Foto: Vagner Barreto

 

É possível imaginar, também, que algumas das partes arrancadas da estrutura tenham servido para a manutenção daqueles que foram atraídos do campo para a construção das cidades, ao longo dos anos 1970 e 1980. Ao catarem os escombros sociais que o centro rejeitou, moradores de periferia criam casas, carroças, favelas, bonecos, lenha para fogões, hortas, cercados.

 

Em uma arqueologia dos ruídos, nas camadas mais subterrâneas é possível encontrar pedras extraídas da pedreira atualmente ligada ao prédio por uma sombra cinza, fantasma da construção de um Centro de Interpretação do Pampa (CIP).  

Subterrâneo

Subterrâneo. Foto: Vagner Barreto

 

Segundo o site do projeto, sediado na Universidade Federal do Pampa , o centro objetiva mostrar o modo de se viver no pampa a partir de um espaço que se destinará às diversas manifestações culturais, congregando tanto pesquisadores quanto público em geral, em experiências sensitivas que incluem sons e imagens. As ruínas da antiga enfermaria militar, seriam o palco para a imersão.

A presença do prédio na paisagem chama atenção pelas várias camadas da relação entre humanos e ambientes, entre avanços e recuos, entre infiltrações e culturas. Com o projeto congelado frente aos acontecimentos políticos recentes, o prédio, deixado de lado, expõe, como em denúncia, o “puxadinho” cimentado que termina na pedreira, onde seria construído um anfiteatro. Ilumina, enquanto monumento de cultura e de barbárie, um ponto de partida para o micro e o macro; o particular e o global, em mais um ciclo de História.

 

Maquete de um sonho

Projeção em sonho do Centro de Interpretação do Pampa (CIP). Fonte: Brasil Arquitetura

 

Em 1990, o local foi tombado pelo Patrimônio Histórico Artístico do Estado do Rio Grande do Sul (IPHAE-RS). Apesar disso, seguiu em estado de abandono até que, em agosto de 2009, a população de Jaguarão realizou o “Abraço à Enfermaria Militar”, em defesa da contratação de um projeto arquitetônico para a área. Desta maneira, em 2010, uma parceria entre a Prefeitura de Jaguarão e a Unipampa, possibilitou a inclusão do projeto arquitetônico de revitalização no PAC Cidades Históricas do Governo Federal.

 

Uma das propostas do CIP era fomentar o desenvolvimento econômico da região, por meio de pesquisas sediadas naquelas instalações. Hoje, os fantasmas do CIP rondam as salas vazias e abandonadas, que serviriam como complexo cultural, equipado com museu, anfiteatro e auditório subterrâneo, além de prédio de apoio para desenvolvimento de atividades de ensino, pesquisa e extensão.

 

Um dos objetivos do museu seria organizar a história da instituição, incentivando novos olhares e contribuições sobre seus usos no passado e no presente. A obra teve, pelo menos, o crédito do asfaltamento das ruas de acesso, utilizadas por alguns alunos para cortar caminho até o campus da Unipampa, façanha impossível antes em função do barro que se acumulava nos dias de chuva.

 

Cão Guardião

Cão Guardião. Foto: Vagner Barreto

 

Atualmente, para ter acesso ao interior da Enfermaria, é necessária autorização da Reitoria da Unipampa. Aqueles que realizaram visitas técnicas com universidades, afirmam que o estado do local é de deterioração.

 

João, responsável pela zeladoria, nos deixa cruzar as cercas e olhar as paredes externas do prédio. Ele cuida daquele fóssil recente, que permanece sem instalação elétrica. Aguarda o andamento das obras em uma cabana coberta por lonas dentro do cercado. João mora ali. “Ali e lá”, define, apontando para o Uruguay. Ele é como o rio: une o diverso por meio de seu fluxo. Aqui. E lá. Os cachorros, seus companheiros correm entre pombas pelo ventre das ruínas.

 

“Dizem que elas abrigam muitos fantasmas” arrisca o homem, sem desmentir nem confirmar. O certo é que alguns colegas já relataram ouvir barulhos estranhos, como ranger da madeira. Outros, dizem que ouvem vozes e narram a morte de pessoas que teriam caído após escalar uma torre. “Tem muita tristeza aí dentro.” Os turistas, alheios aos fantasmas e ruídos, costumam passar, pedir para entrar e fotografar.

 

Há dias em que João gosta de subir até a torre mais alta – com a ajuda de uma escada de madeira. De frente para o Rio Jaguarão, do alto de uma Enfermaria Militar em ruínas, vigia entre dois mundos, como quem guarda um Portal de fósseis e fantasmas do pampa.

 

Texto: Vagner Barreto
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