A live de Caetano
Carlos Roberto Winckler*

Live de Caetano – Não foi por ser transmitida pela Globo, não foi por reminiscência dos debates sobre a cultura nacional popular no final dos anos 60 e anos 70, que respingavam na avaliação da obra de Chico e Caetano, não foi por críticas ao marketing ferozmente controlado pela senhora L ( como bem denominou uma amiga cearense, jornalista sensível), não foi por lembranças de eventuais posições políticas nos anos 80 e 90.

Em décadas de carreira talvez se tenha uma medida mais segura de seu valor, sem dúvida imenso. Nem teve a mais leve pitada de certo despeito masculino pelo fato de esse senhor com 78 anos encantar minhas amigas. Tal como Chico. Vivemos o inimaginável, o grotesco. A medida que se supera o número de 100000 mortos, dois terços provavelmente evitáveis, caso não estivéssemos nas mãos de celerados negacionistas e dinheiristas de toda ordem, recuei constrangido e envergonhado.

Alguns milhões em luto, outros tantos
indiferentes em sua negação da morte.
Dança macabra nos
corredores de shoppings.

Naquele domingo um silêncio espesso recobriu as ruas do País apesar de campanha ( discreta) por panelaço. Alguns milhões em luto, outros tantos indiferentes em sua negação da morte. Dança macabra nos corredores de shoppings. Nada mais coerente: o capitalismo como forma cultural jamais desenvolveu uma concepção da morte, vale apenas o fluxo eterno da mercadoria. E agora, os burgueses mais assustados (com a economia) nos acenam com um grande pacto em editoriais na FSP, artigos no Globo, comentários no Jornal Nacional. Transitaram do ato magnânimo de perdoar o PT a possibilidade de anular os processos contra Lula. O bode expiatório foi encontrado na figura patética de Moro e nos cúmplices da Lava Jato. Contam com a cumplicidade da esquerda – com ou sem Lula – em recompor o País a partir da institucionalidade que estão impondo. Sonhos chilenos.

Live de Caetano

Não assistir Caetano foi um ato de luto e uma defesa consciente. Não resistiria vê- lo em certa fragilidade da velhice ( a de nossa geração ) e na absoluta beleza de muitas de suas canções que prometem a felicidade (nada mais marcusiano), e que nos é tão sordidamente fraudada.

* Professor de Sociologia/ Pesquisador aposentado pela FEE.


Live de Caetano: Porque não assisti

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