Mulheres indígenas e camponesas se unem em Brasília para lutar contra retrocessos sociais. O encontro das Margaridas conta com público de 100 mil pessoas. A primeira Marcha das Mulheres indígenas tem como lema “Território: nosso corpo nosso espírito” e contabiliza entre 1500 e 2000 mulheres de diversas aldeias de trodo o País.

Mulheres indígenas e camponesas em Brasília de 9 a 14 de agosto
Marcha das mulheres indígenas


Da Página do MST 

Como forma de resistir ao cenário político atual, mulheres indígenas resolveram agregar movimentos. A primeira Marcha das Mulheres Indígenas ocorre simultaneamente à Marcha das Margaridas. O objetivo é levar o maior número de pessoas, sobretudo, mulheres, à Brasília para reivindicar direitos e lutar contra retrocessos. A estimativa é que a capital do País receba aproximadamente 100 mil pessoas nos dias 13 e 14 de agosto. O primeiro dia de ação será destinado às autóctones e aos simpatizantes de suas lutas. No dia seguinte, ocorrerá a popular Marcha das Margaridas.

MARGARIDA

Assassinada por um latifundiário, em 12 de agosto de 1983, a história de Margarida incentivou a organização do movimento que viria a ser a maior ação de mulheres da América Latina. A frase “É melhor morrer na luta do que morrer de fome”, de Margarida, ganhou corpo e hoje reúne em Brasília mulheres da terra, das águas e das florestas.

Durante o Acampamento Terra Livre (ATL), realizado em abril, decidiu-se a união das lutas. Há anos que a Marcha das Margaridas vem ampliando as demandas das mulheres trabalhadoras e excluídas da sociedade brasileira a fim de democratizar a ação e torná-la mais incisiva. O Fórum Nacional das Mulheres Indígenas terá inicia hoje, 9 de agosto. A ideia é, assim, discutir questões levantadas na ATL deste ano.

Marcha das Margaridas de agosto de 2015. (José Cruz/Agência Brasil)
Marcha das Margaridas: 12 de agosto de 2015 (José Cruz/Agência Brasil)

FÓRUM

“O Fórum vai abrir um espaço às questões que nós temos que dar como prioridade dentro de tudo o que a gente vai fazer. Ouvir das mulheres o que elas estão trazendo “de dentro” de seus estados e municípios. E o que elas têm de avanço, o que elas têm de desafio. Estaremos coletando […] até para o próprio governo, para ele colocar como política pública. Porque o governo não está tendo o trabalho de trazer as mulheres e nós estamos indo até o governo para apresentar as nossas demandas.”, explica Rosimere Teles, povo Arapaço da terra indígena Alto Rio Negro, no Amazonas, membro da coordenação da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (UMAB). A estimativa é de que compareçam entre 1500 e duas mil mulheres indígenas das mais diversas aldeias do País.

PAUTAS

De acordo com as pautas levantadas na plenária do ATL, o lema da primeira Marcha “Território: nosso corpo, nosso espírito” tende a levar questões que são imprescindíveis na luta pela proteção e manutenção do território através do olhar sustentável das mulheres indígenas. Além disso, traça como objetivo trabalhar temas que relacionados à saúde pública e educação, assuntos que têm, também, demandado maior cautela devido ao desmonte projetado e executado pelo governo Bolsonaro. A Secretaria Especial de Saúde Indígena, órgão fundamental no tratamento qualificado aos povos originários, por exemplo, vem sofrendo dificuldades na sua execução.

O slogan escolhido procura representar o que é essencial na vida das mulheres indígenas. “Porque nosso corpo tem a ver com território? Porque a terra é parte das nossas vidas. Tudo dependemos da Natureza. Tudo existe nela”, comenta Rosimere. Completa dizendo que o território é local onde se constroem moradias e produzem alimentos, e que os espíritos dos povos indígenas têm lugares sagrados. Rosimere também alerta que cuidar da mãe terra é o mesmo que cuidar do corpo.

QUESTÕES DE GÊNERO

Ro’Otsitsina Xavante, liderança indígena, em entrevista ao El País, afirmou que questões de gênero chegam com timidez à Marcha, mas que os temas vêm ganhando espaço no debate público com decorrer do tempo. Devido às distinções culturais e temporais, a condição da mulher indígena é tratada com maior cautela a fim de respeitar as peculiaridades de cada povo e não alimentar o processo de colonização atual. “Nós mulheres não somos parte do povo, nós somos o povo. Então, violando uma menina, violando uma mulher, você está violando o povo.”, enfatiza Ro’Otsitsina Xavante.

No Brasil, existem organizações
de mulheres indígenas como a
Associação das Guerreiras
Indígenas de Rondônia;
União das Mulheres Indígenas
da Amazônia Brasileira;
Movimenta de Mulheres
do Xingu; entre outras.

Oficinas cumprem o papel de levar discussões sobre violência e abuso sexual contra mulheres originárias às maiores interessadas. Elas estão no processo de compreender o que são e, ao mesmo tempo, de que forma operam determinadas agressões. Há forte crescimento de violência contra os povos indígenas no País e as maiores vítimas acabam sendo mulheres e crianças.

MÚLTIPLAS VOZES

No Brasil, existem organizações de mulheres indígenas como a Associação das Guerreiras Indígenas de Rondônia; União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira; Movimenta de Mulheres do Xingu; entre outras. Mas, pela primeira vez, o País terá uma ação organizada a nível nacional para que mulheres indígenas levem pautas ambientais, trabalhistas e de direitos humanos até a capital.

Com o lema “Margaridas na luta por um Brasil com soberania popular, democracia, justiça, igualdade e livre de violência”, os dias 13 e 14 estão reservados a mais uma edição da Marcha das Margaridas, que ocorre uma vez a cada quatro anos, desde o ano 2000. O movimento busca combater as diferentes formas de violência cometidas contra as mulheres rurais e vem se tornando cada vez mais democrático ao oferecer espaçoigualmente a vozes das florestas e das águas.

A segunda semana de agosto vem para que mulheres originárias do Brasil, junto às camponesas, pessoas responsáveis por produzir o alimento que a (o) brasileira (o) tem na mesa, resistam ao atual processo colonizador na busca por mais visibilidade e, simultaneamente, respeito na sociedade.

Nessa perspectriva, mulheres indígenas e camponesas, juntas, dão exemplo de luta às demais brasileiras.

 Mulheres indígenas e camponesas juntas de 9 a 14 de agosto, em Brasília
Mulheres indígenas e camponesas reúnem forças em Brasília, de 9 a 14 de agosto

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