O corredor
Carlos Roberto Winckler

Dezessete horas. Depois de horas
de home office retomo à
rotina de correr pelo
menos dez quilômetros.

O corredor e a quarentena – Normalmente, corro em pista de meu clube, mas ando precisando de desafios. Mudarei de roteiro. Sairei do Bairro Bela Vista até o Palácio Piratini. Ambiente com seus riscos após o Parque Moinhos de Vento. O Parcão.

Onde estão meu tênis Cloudflyer e o moletom Hoodie? Que inferno, nada está em ordem depois que dispensamos Tereza, nossa secretária, com meio salário mínimo. Maria Eduarda tem bom coração, frequenta a Igreja Auxiliadora, mas não compreende muito o que está se passando. Essa é uma época que exige coragem, ousadia no enfrentamento das dificuldades, dureza, o que ouso em reuniões online e presenciais.

Sugeri ao nosso diretor financeiro (um bunda mole), apesar de ser gerente de compras e vendas da rede, dispensar colaboradores apenas com garantia de retorno passada a tempestade. A sugestão foi aceita: pontos em possível promoção. Onde está meu Movado? O vendedor garantiu que o tênis, o moletom, o relógio agregam o melhor da tecnologia de esportes suíços. Movado, em esperanto, quer dizer: em movimento. Quem fica parado, morre!

Maria Eduarda, consultora de
moda, tenta explicar a João
Paulo tarefas escolares online.
É desesperador.

Pronto. Me despeço, retorno em uma hora e meia. Nem notam. Maria Eduarda, consultora de moda, tenta explicar a João Paulo tarefas escolares online. É desesperador. O que querem esses professores? Trabalham menos, folgam em casa e a mensalidade nas alturas! Na primeira consulta online da escola pediremos um abatimento na mensalidade e que diminuam salários.

Como descer em segurança? Está o elevador higienizado? O malandro do seu José sempre dá um jeito de ficar na maciota. Vou pela escada, tenho boa resistência. Frequento a academia Hercules há algum tempo, desde que nos mudamos para a Carlos Trein. Nunca ficou bem claro se no Bairro Bela Vista ou Auxiliadora, mas sempre dizemos que é no Bela Vista, um cantinho especial, aconchegante e distinto como bem lembra Maria Eduarda.

Oito andares, desço com certa facilidade. Para baixo todo santo ajuda. Na portaria ninguém. Qual a responsabilidade dessa gente? Um pequeno aquecimento e vou em direção ao Parcão. Ritmo pausado, depois com certa velocidade , como orientou meu personal trainer. Respiração regulada. Valem a persistência, a disciplina, o cálculo da capacidade e possibilidades, tal como nos negócios. Dois quilômetros. Aumento a velocidade, mas não ao ponto de não poder cumprimentar conhecidos, frequentadores do parque. Quem não é visto, não é lembrado!

Bolsonaro tem certa razão,
apesar de ser um
pouco grosseiro.


Exageram pedindo que se fique em casa. O que será da economia se ficam meses sustentados pelo governo? Bolsonaro tem certa razão, apesar de ser um pouco grosseiro. A alternativa era de doer, uma afronta às liberdades. Foram úteis os encontros do Fórum da Liberdade. Sim, reconheço que as vendas já foram melhores, mas o sacrifício será compensado.

Passo o parque, sigo até a Independência em direção ao Palácio Piratini. Poucos automóveis. Acelero avanço pelo corredor de ônibus evito mendigos catadores passo gel nas mãos um pouco nas roupas caso roce nesses infelizes não souberam aproveitar oportunidades pulo para a calçada ambulância Santa Casa peste de merda um. quilômetro Palácio como no rafting empresarial Vale Paranhama agora solitário vírus quer me apanhar no Vale corredeiras dinâmica integração motivação liderança caça a bolinhas flutuando correntes entregues outra equipe tempo definido descer corredeiras equipe olhos vendados confiança instrutor capacidades competição equipe metas bônus fim do ano. Menor velocidade.

Um quilômetro Palácio. Como no rafting empresarial Vale Paranhama, agora solitário vírus quer me apanhar no Vale corredeiras dinâmica integração motivação liderança caça a bolinhas flutuando correntes entregues outra equipe tempo definido descer corredeiras equipe olhos vendados confiança instrutor capacidades competição equipe metas bônus fim do ano. Menor velocidade.

Imagino o destemido governador,
jovem como eu, com cursos de
gestão nos EUA, a desafiar o senso
comum da esquerda, que hostiliza
carreatas a favor do livre
comércio e das liberdades.


O Palácio iluminado. Volta na Praça da Matriz. Respiro profundamente. Paro. Imagino o destemido governador, jovem como eu, com cursos de gestão nos EUA, a desafiar o senso comum da esquerda, que hostiliza carreatas a favor do livre comércio e das liberdades. Ora, ficar em casa! Flexibilizar, sair da quarentena com base em estudos científicos, tal como se dá na minha empresa ao estabelecer estratégias. Muito razoável.

Parece que os pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas não acharam muita graça no uso pelo governo dos resultados e recomendações da pesquisa. Cientistas, o que entendem das reais necessidades de colaboradores? Até cidadãos comuns se acham no direito de se meter nos cuidados de empregados em nossos estabelecimentos.

Retorno em direção à Santa Casa. Ritmo mais forte. Ambulâncias, filas. Atravesso a rua, esbarro em pessoas na parada de ônibus. Gel nas mãos no rosto nas roupas nas narinas… Como garantir fornecedores aumentaram vendas forçam metas continuidade tendência deslizo corredeiras Mostardeiro Parcão condomínio aumentou quem demitir automatização empresa quem faz faxina na casa limpa vaso lava louça Maria Eduarda nervosa trepar zero vadias em quarentena discussões igualdade insinuam corte de salários João Pedro trancado quarto próximo condomínio portaria jardim a grama a grama nada.

O corredor e a quarentena



Em tempo

Aguardem. A fake news trombeteada por Trump e a extrema direita norte americana de que o covid-19 é, pelo menos, o resultado de um acidente ocorrido em laboratório em Wuhan, secundada pelos lacaios locais, mal esconde o propósito de justificar sanções duras contra a China em futuro próximo.

Inclui-se no cardápio a montagem de mega indenização em tribunais internacionais por prejuízos econômicos e sociais, semelhantes a indenização de guerra. Se não dá, ao menos agora, para se envolver em guerra direta, por que não atazanar a China?

Enquanto isso os idiotas usuais, como Weintraub, repercutem na colônia o bestialógico do comunavírus, efeito ideológico do covid-19, que prepara o ambiente para a comunização do mundo. Basta a palavra solidariedade, para tornar-se suspeito. E há quem proponha a identificação daqueles que se isolam, resguardando a si e aos outros, com uma fita vermelha e privação de cuidados médicos e de alimentos. Rufam os tambores do fascismo. Negócios e morte.



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*Sociólogo, professor
aposentado pela FEE