O poder e o esterco
Carlos Roberto Winckler

O poder e o esterco – A rapidez dos acontecimentos mostra o inexorável isolamento de Bolsonaro, reduzido, no plano institucional, ao gabinete do ódio que se restringe aos filhos e apaniguados milicianos e, talvez, ao Gal. Heleno , cuja capacidade estratégica é quase nula, fundada apenas no ressentimento antipetista.

A pandemia mostrou a absoluta incapacidade de articulação do executivo, obcecado pela tese da não ingerência do governo em assuntos desse tipo. Que a natureza imunize e resolva à sua maneira, decidindo quem morre ou não. Tal como o mercado sem peias, com o resultado que salta aos olhos. A única concessão que se ouviu foi de que bastava o isolamento vertical. De que se isolasse os idosos, algo inócuo e irresponsável aos olhos dos especialistas e da OMS.

A única concessão que se ouviu foi
de que bastava o isolamento vertical.
De que se isolasse os idosos, algo
inócuo e irresponsável aos
olhos dos especialistas e da OMS.


Mesmo o então ministro da Saúde, em que pese aparentemente ter cedido, em reunião, reafirmou a necessidade do confinamento, única forma de conter o avanço impetuoso da pandemia, que sobrecarregaria o Sistema de Saúde. Ninguém assume tal posição sem ter costas largas: apoio de militares e liberais conservadores, temerosos do descontrole, mais grave ainda em um país com imensa desigualdade social e com um sistema público de saúde fragilizado.

Governadores e prefeitos, médicos, técnicos em saúde praticamente correm à margem das pretensas diretrizes de Bolsonaro que não passam de puro besteirol. Governador do Pará não hesitou em coibir carreata, outras foram simplesmente multadas. Tribunais superiores e juízes singulares se opõem à flexibilização do confinamento, conscientes de que a catástrofe é iminente.

As medidas econômicas de proteção ao emprego e salário nasceram de iniciativa da oposição, estão em processo legislativo e nem se sabe o quanto esse governo tem condições de implementa-las a curto prazo, tal seu grau de incapacidade. Guedes hoje é um fantasma a perambular pateticamente em salões do sistema financeiro.

Guedes hoje é um fantasma
a perambular pateticamente
em salões do sistema financeiro.


O momento exige uma economia de guerra com reconversão industrial na produção de equipamentos e materiais de saúde, forte presença do Estado na preservação do salário e de empresas que mais empregam. A taxação das grandes fortunas passa a ser vista como inevitável, mesmo que provisoriamente, além da renegociação de prazos para pagamentos de dividas. Tudo para ontem!

E o que faz Bolsonaro ? Aparenta concordância com alguns aspectos das propostas, mas joga desesperado na defesa de sua permanência no poder, movido por lógica miliciana de assalto ao Estado, subalterna a questões ideológicas rebaixadas e mesmo ao crime.

Apela à lumpemburguesia brasileira; a setores burgueses regionais desesperados pela sobrevivência econômica; aos setores desorganizados e precarizados, como se viu na periferia de Brasília, onde distribuiu perdigotos, ameaças e promessas irresponsáveis.

Mobiliza carreatas, promovidas
por entidades empresariais
locais e pelo núcleo duro do
neofascismo tropical,

hostilizadas por onde passaram.

Mobiliza carreatas, promovidas por entidades empresariais locais e pelo núcleo duro do neofascismo tropical, hostilizadas por onde passaam.

Em Santa Catarina foram agraciadas com esterco. Frente a bravatas bolsonaristas resta apenas uma pergunta: qual o poder efetivo de resistência ? Se há, parece fragmentado. Renúncia com uma espécie de perdão antecipado estendido aos filhos pode ser um presente dos deuses. Já se fala em deposição e prisão, além de um grande acordo nacional no enfrentamento à crise econômica e sanitária combinadas. Mas ratos costumam abandonar o navio em situações críticas. Quem aceitará a famiglia?

O poder e o esterco


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