Operação Placebo e sobrevivênc ia política – Carlos Roberto Winckler
Carlos Roberto Winckler
Operação Placebo – Recém começamos a deglutir o vídeo da reunião-circo de Bolsonaro, ministros e altos dirigentes, e somos surpreendidos pela Operação Placebo, desencadeada no RJ, com o propósito de apurar indícios de desvios de recursos públicos destinados ao combate da pandemia envolvendo o governador Witzel, até há pouco tempo fiel bolsonarista, agora inimigo segundo a lógica miliciana fascista.


Foram cumpridos mandados de busca e apreensão na residência do governador, no escritório de sua esposa e na residência de um ex-secretário da saúde.

As medidas foram expedidas pelo TSJ, investigações foram realizadas pela policia civil, Ministério Público Estadual e compartilhadas com a Procuradoria Geral da República. A operação teve início no dia 13 de maio. Witzel teria dado continuidade a esquemas que vinham desde o governo Sérgio Cabral. Esses os fatos, segundo a denúncia.

Atos e curiosas coincidências

  • Um dia antes da operação, a deputada Carla Zambelli, bolsonarista de quatro costados, em entrevista a uma rádio gaúcha, sem maiores detalhes, falou que governadores estavam sob investigação. 
  • Na reunião-circo, Bolsonaro chamou  Witzel e Dória de Bosta e Estrume, respectivamente, ao criticar suas políticas sanitárias, por mais limitadas que sejam.
  • Nessa mesma reunião, que já está nos anais pátrios, Bolsonaro, em meio a impropérios que preenchem seu vazio vocabular, queixou-se da incapacidade dos órgãos de informação do governo e da dificuldade em substituir agentes na superintendência para maior segurança dos seus e de amigos. A sequência sabemos: novo diretor geral na Polícia Federal, novo superintendente no RJ, saída de Moro do ministério da Justiça, queixando-se de interferência.
  • No dia da operação, foram publicadas no Diário Oficial, 16 páginas com 99 portarias reunindo centenas de alterações na composição da Polícia Federal. 
  • O Procurador Geral Aras indicou três procuradores para investigar possíveis indícios de corrupção contra governadores em contratos emergenciais para compra de insumos destinados ao combate da Covid -19.

Temos aqui a tentativa de politizar a pandemia, tendo em vista a sobrevivência política em um momento de perda de apoio, segundo pesquisas recentes.

O modus operandi

– Com a continuidade de boicote às políticas de isolamento promovidas por governadores, ainda que algo limitadas, em um momento dramático de expansão das mortes e contaminação. Investigações, a depender de como são realizadas, de compra de insumos de saúde e que obedecem a regras de emergência, podem resultar em restrições à autonomia dos  estados, além de atender às pressões empresariais por abertura, que menosprezam  os riscos sanitários  da antecipação. Mas o decisivo é que se pode criar uma variante lavajatista da pandemia. Um Covidão como disse Carla Zambelli. Witzel é o teste. São previsíveis razias contra ex-aliados e opositores.

-– A aposta no tema da corrupção com o propósito de restaurar o apoio perdido junto a setores médios e populares. Além disso, sempre se poderá alegar, em caso de desastre, que a culpa é de governadores corruptos. Pouco importa se os fatos são reais ou forjados. A ação desencadeada teve  vazamentos e espetacularização, como de praxe.

– Nesse ambiente, Guedes, o Mago das Finanças,  poderá continuar tirando coelhinhos da cartola para militares embasbacados ou intimidados  com a sapiência, como se viu no circo.

A reestruturação da Polícia Federal, na prática como polícia política, é essencial na seleção do que investigar, inclusive parlamentares.

-– Restaurando a base de apoio na Câmara, impedindo a possibilidade de licença para processo via STF ou impeachment. A reestruturação da PF, na prática como polícia política, é essencial na seleção do que investigar , inclusive parlamentares. Mas a reestruturação é, também, decisiva em um momento em que processos que investigam o clã podem chegar, em maior ou menor velocidade, a conclusões incômodas (rachadinhas, morte de Marielle, cuja investigação desejam federalizar mas foram frustrados pelo STJ), ou pelo menos criar obstáculos, não bastasse a CPI das fakenews a investigações do TSE, ou que Zambelli, Weintraub e Salles tenham que responder pelo que dizem e praticam.

A condensação da crise econômica/pandemia exige ousadia e rapidez. Há um duplo processo em curso: arregimentação de bolsonaristas em um núcleo duro de ressentidos, ávidos de reconhecimento social  e flexibilidade em relação ao pântano  da Câmara: o Centrão, com o qual um militar realiza conversações tendo em vista o aluguel de fidelidades. Um encontro de conveniências: um jogo de ganha-ganha. Os militares, por enquanto, estão satisfeitos no gozo de quase três mil cargos. Até quando? E se a instituição como tal desmoralizar- se em meio à crise sanitária?

O grau de incertezas é imenso. Daí, a mentalidade de bunker, de cerco. Inimigos estão em todo canto, em qualquer fresta à espreita. Qualquer defecção é vista como traição por Bolsonaro e adeptos. Imaginem, como exercício, um bunker  onde só restem Bolsonaro, os filhos, Carla Zambelli e Heleno, recebendo diretrizes de Olavo Carvalho. Até Steve Bannon deu no pé.

A propósito: a denominação  Operação Placebo é muito apropriada. Não tem propósito terapêutico, tem apenas a finalidade de suscitar ou controlar reações, em geral de ordem psicológica.

A rigor não há maior interesse em investigar atos de corrupção reais. Toda tirania em gestação procura suscitar medo e paralisação

Operação Placebo

Leia também:

*Sociólogo, professor
aposentado pela FEE