Pesquisas e incertezas liberais conservadoras
Carlos Roberto Winckler

Pesquisas e incertezas liberais conservadoras – A gestão da pandemia segue nas mãos de um general, “interino-permanente”, e de militares comissionados, que conseguem apenas   tratar da logística da área,  além de aceitarem servilmente  o contingenciamento de recursos destinados teoricamente à Saúde. Talvez, mais do que por simples servilismo, facilitado por ganhos decorrentes do cargo aos quais  se somam proventos decorrentes de aposentadorias (os dados seguem opacos na plataforma Transparência Brasil, apesar de determinação contrária), sintam-se orgulhosamente  senhores da vida ou da morte. 

Dados de pesquisas de 14 a 17 de agosto de aprovação do governo, DataFolha 34% e XP-Ipespe 37% , mostram um avanço sobre pesquisas anteriores, que apontavam aprovação em torno  de 30% , mesmo antes da pandemia. Ressalte-se que outra pesquisa da DataFolha mostrou que 41% consideram Bolsonaro em parte responsável  pelo alto número de mortos ( a responsabilidade dividida com governadores) e 11% de inteira responsabilidade de Bolsonaro; 47% o isentam de qualquer culpa, mesmo após saída de dois ministros da Saúde.

Setores liberais conservadores, antes ansiosos
por frentes que subordinassem a esquerda
como plano alternativo ou arma de
pressão sobre o governo, reforçaram
justificativas à adesão da hora

Na saída de Moro, se avaliou que haveria uma queda severa da aprovação de Bolsonaro, o que não se concretizou, para desespero  dos liberais conservadores, que apoiaram o golpe de 2016 e nutriam esperanças em Alkmim. Também nos índices  de rejeição há uma queda de 10 pontos ( 34% DataFolha; 37% XP). Foi o suficiente para renovar o pessimismo de muitos com o destino do País.

Setores liberais conservadores, antes ansiosos por criar frentes que subordinassem a esquerda como plano alternativo ou arma de pressão sobre o governo, reforçaram justificativas à adesão da hora. Isso, em uma conjuntura de denúncias de corrupção envolvendo os gabinetes dos filhos de Bolsonaro e do próprio quando deputado, além do acúmulo de pedidos de impeachment no gabinete da presidência da Câmara. Rodrigo Maia, todo pimpão, em recente entrevista  mostrou a que veio.

A melhoria da  aprovação  deve ser,
em parte, relativizada:  foi por telefone
e é o segundo pior índice de um
presidente em igual período temporal

Em parte, as pesquisas, que mostram melhora na aprovação, podem ser explicadas pelo êxito do auxilio emergencial  de 600 reais – de resto resultado de negociação das oposições no Congresso – que ocasionou  distribuição de renda de  setores mais pobres se comparada com o Bolsa Família, em meio à catástrofe social, econômica e sanitária. A melhoria da  aprovação  deve ser, em parte, relativizada:  foi por telefone e é o segundo pior índice de um presidente em igual período temporal. Collor o tinha pior e havia bloqueado a poupança. Some-se a isso o papel da mídia que, com precisão, cirúrgica suaviza a crítica a Bolsonaro, ao mesmo tempo que  o chantageia com a possibilidade de impeachment. Há, ainda, o apoio do Centrão, núcleo mais fisiológico dos liberais conservadores, que dá continuidade  ao projeto neoliberal com matizes, afastando os ultraliberais, pois não  pretende se suicidar.

À chantagem, tendo em vista essa continuidade, somam-se, devido à proximidade das eleições municipais, a renovação  do Fundeb e o aceno à continuidade do auxílio emergencial. Aqui há coincidência com interesses de Bolsonaro, desde sempre voltado à possibilidade de reeleger-se, além de seu esforço anímico em camuflar pendores ditatoriais. Se permanecer no cargo e for reeleito, pode surgir algo semelhante, em termos políticos, ao regime húngaro ora vigente   de tendências ultra-autoritárias, socialmente parecido com o da Colômbia e economicamente agroexportador. Isso tudo devidamente avalizado pelo poder militar, que se vê como poder moderador, com peso crescente no aparato estatal e orçamento para a defesa maior que o da educação desejado já para o próximo ano.

Por mais modestas que fossem, em
comparação com os governos petistas,
as medidas sofreram críticas de Guedes

A sugestão de se substituir o auxílio emergencial por renda básica menor que o auxílio emergencial e maior que o Bolsa Família, sem o conjunto de políticas sociais  vinculadas como no período petista, poderá dar fôlego à candidatura de Bolsonaro em 2022. Até medidas “keynesianas” poderão ser implantadas, ao estilo do que foi apresentado em PowerPoint sofrível do general Braga na patética reunião  ministerial de abril.

Por mais modestas que fossem, em comparação com os governos petistas, as medidas sofreram críticas de Guedes. A rigor não  são necessariamente   incompatíveis com a hegemonia neoliberal. Podem gerar algum emprego e certamente as empresas contratadas  seriam estadunidenses ou chinesas a depender da área, mesmo porque as empresas nacionais de infraestrutura estão literalmente na lona, como resultado da Lava Jato e das políticas  pós-golpe. Um bom edital resolve a vida  de empresas yankees interessadas, para alegria do eventual ocupante da Casa Branca, seja democrata ou republicano. Nada como uma boa parceria público-privada, de preferência com características leoninas que pesem sobre o setor público.

É claro, há pedras no caminho.
O que fazer com Lula e,
no limite, o que fazer com oPT

E claro, há uma pedra no caminho: o que fazer com Lula. Os reiterados adiamentos pelo Conselho Nacional do Ministério Público do julgamento do Power Point apresentado por Dallagnol – o espantoso 41° – tudo dizem. Como e quando se julgará no STF a suspeição de Moro em sentença desfavorável a Lula?

E, no limite, o que fazer com o PT, nas eleições de 2022? Nesse cenário setores espertos do liberalismo conservador correm contra o tempo as propostas de frentes. Até o momento surgiram natimortas, pois em nenhum momento foram capazes de explicitar o Fora Bolsonaro. As propostas de mudanças foram de uma platitude atroz.  Ao fundo, a questão inevitável: como compatibilizar políticas neoliberais com democracia substantiva? Por ora se esforçam em domesticar Bolsonaro, em jogo ambíguo, após a temporada de manifestos inócuos. Assim, permanecerão se não conseguirem  um candidato competitivo, seja fino ou finório.

Os países, que insistirem em
políticas neoliberais sofrerão mais
dramaticamente os efeitos dessa escolha

O cenário pós-pandemia tem complicadores de monta, que colocarão à prova os 30%  ou um índice algo menor de aprovação. O quadro internacional não  é  tranquilo, está no horizonte uma crise mais severa que a de 2008. Os países, que insistirem em políticas neoliberais sofrerão mais dramaticamente os efeitos dessa escolha, principalmente os da periferia capitalista, transformados   em meras colônias.

A continuidade das políticas neoliberais no Brasil forçará  setores das classes médias  assalariadas a retornar às ruas à medida que sucumbem aos  efeitos das políticas em curso. Juntamente, estarão movimentos sociais do campo e das cidades, que no decorrer do  enfrentamento à pandemia criaram formas de auto-organização inovadoras essenciais no combate à barbárie em curso.

Pesquisas e incertezas liberais conservadoras

Pesquisas e incertezas liberais conservadoras – O cenário pós-pandemia tem complicadores =que colocarão à prova os índices de Bolsonaro.


* Professor de Sociologia/ Pesquisador aposentado pela FEE.

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