O casal Góg e Silvana Kaingang forma uma dupla harmônica. Silvana tem a pele marrom, como os pinhões da paisagem da comunidade onde mora, no interior de Farroupilha, Nordeste da Serra gaúcha. Góg tem a pele clara, e olhos azulados. Silvana fala pouco. Presta atenção a cada pergunta. Faz uma pausa antes de responder. Inicialmente, desconfiados, trocam olhares e conversam na sua língua, o kaingang. Nas falas, Góg é econômico e enfático. Sobre o tempo que moram na região, o cálculo é rápido: mais de 500 anos. Silvana tem mãos pequenas e delicadas, que aperta enquanto, calmamente, nos observa. Góg tem olhar inteligente e oblíquo, que parece brincar conosco. Silvana pertence à metade Kairu. Góg à metade Kamé.

 

Entender a complexa cosmologia dos indígenas de etnia kaingang exige certo deslocamento cultural. De forma simples, pode-se dizer que o grupo, que pertence à família linguística Jê, se organiza socialmente em um sistema de metades. Essas metades, que em certa medida se opõem e se complementam, têm como mito de origem os irmãos gêmeos Kamé e Kairu.

Curt Nimuendajú (1883-1945), alemão naturalizado brasileiro que viveu mais de quarenta anos entre grupos indígenas, foi um dos primeiros a registrar a forma dualista da vida kaingang. Os casamentos devem ser realizados entre as metades Kamé e Kairu e permanecem como regra na comunidade. Aqueles que não seguem esses preceitos devem deixar a aldeia, adverte Silvana.

No mito de origem kaingang, os dois heróis que dão nome às metades criaram os seres da natureza após um grande dilúvio. Na etnia onças, cobras, veados, antas e demais seres também obedecem ao sistema dual: carregam valores a ele associados, tais como forte/fraco, alto/baixo, impetuoso/persistente.

 

Como em toda sociedade, algumas dinâmicas se expressam no cotidiano. Silvana ocupa, atualmente, o papel de liderança política responsável pelas mais de vinte famílias que integram a comunidade. Além da pequena localidade onde se encontram – pouco mais de 700m² –, cerca de oito famílias vivem em outra faixa de terra, cedida como compensação pela construção da BR 386. A cacica explica que, segundo a tradição, os homens ocupam o papel de líderes, mas, por consenso, ela foi eleita representante dos indígenas que se fixaram no local no início dos anos 2000.

 

 

 

 

Uma das principais fontes de renda da comunidade é a venda de artesanato. Recentemente, porém, a mudança de gestão na cidade de Caxias do Sul (RS), polo regional onde comercializam nas ruas sua produção, tem causado uma série de transtornos. Em acordo realizado com administrações passadas, os indígenas dispunham de cinco locais para a venda.  A partir de maio de 2017, comerciantes informais foram realocados para a Praça das Feiras, no Bairro São Pelegrino, onde deverá ocorrer, mensalmente, a Feira Sem Fronteiras. “Vender o quê?”, questiona Góg, para quem o principal problema é a falta de acesso aos materiais para a confecção de artesanatos, como cestaria e arcos. A madeira e o cipó que utilizam, muitas vezes, estão em terrenos de moradores vizinhos, que acionam a polícia e o Ibama se os indígenas retirarem material da mata.

Comidas tradicionais, como a samambaia da mata, o caraguatá, o broto de abóbora, o milho e o fuva, nome pelo qual designam a erva-moura, também não são mais encontrados na região. “Até a nossa água está poluída, não serve para beber, nem para pescar”, lamenta Góg.

 

Há questão de dois anos, Caxias do Sul se chocou com as cenas de integrantes da comunidade sendo agredidos e presos por membros da Guarda Municipal. Na ação, uma indígena foi imobilizada no chão por três guardas enquanto seu companheiro era algemado. É possível ver a revolta da população frente à brutalidade da cena. Populares  relatam a presença de uma criança indígena de dois anos de idade testemunhando tudo.

 

A comunidade kaingang instalada em Farroupilha, reúne um grupo de crianças que frequentam a Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Nĩvo. Na medida em que sua escolarização/alfabetização se dá na língua portuguesa, afirma-se a tendência de apagamento da língua kaingang, veículo de transmissão de cultura e seu canal difusor, principalmente se consideramos o protagonismo da oralidade entre os povos indígenas. Isso se comprova com um breve recuo na história, quando, durante os “anos de chumbo”, os militares no poder proibiram o uso dos diversos idiomas indígenas, bem como obrigaram que se atribuíssem nomes “brancos” às crianças nascidas a partir daí, conduta que, recentemente, vem sendo abandonada.

 

 

 

 

criança Kaingang (Farfroupilha, RS)

Criança Kaingang sinaliza seus dois anos de idade

Na cultura kaingang, o nome da criança é, originalmente, atribuído pelo kujà, como são chamados os líderes religiosos. Na ausência do kujà, os moradores da aldeia de Farroupilha tentam reconstruir redes com outros coletivos. Góg ressalta que no passado existiam diversos kujà, cada um especialista em uma área, com saberes sobre plantas, rios, animais, sonhos e saúde. Atualmente, segundo o indígena, apenas uma comunidade kaingang no Rio Grande do Sul conta com esse mestre espiritual.

Não basta, portanto, impingir ao indígena o “modo de saúde” do homem branco. É importante preservar e resgatar a medicina nativa e a relação do nativo com a natureza. Algumas iniciativas nessa direção já existem, como a criação de cotas étnico-raciais para pretos, partos e indígenas e editais específicos para indígenas e quilombolas. A reivindicação, porém, avança nessa questão, buscando cursos específicos que aliem os saberes tradicionais à técnicas modernas em saúde.

Ouvir o que têm a dizer esses povos nos ensina lição preciosa sobre valores, sua transmissão e, principalmente, sobre o ilusório contido na ideia de apagar uma cultura. Limitados a um pequeno território, os kaingang se veem privados, de diversas formas, de sua subsistência e de seu modo de vida tradicional. Mas resistem. Como tem feito há 517 anos.

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Reportagem: 
Branca Sólio e Vagner Barreto