https://www.facebook.com/Lula/videos/1697073633694963/ Kaingangs solidarizam-se com o movimento #lulalivre, no Dia do Trabalhador, em Curitiba (PR).

Questão indígena, que envolve diversas facetas, já faz parte da história do País e a solução parece cada vez mais distante

(Matéria originalmente produzida em 2017. Em atualização)

De repente, no dia 09 de maio de 2017, os antropólogos brasileiros chegaram ao Jornal Nacional. Na voz “imparcial” de William Bonner, o anúncio da posse do general Franklinberg Ribeiro de Freitas como presidente interino da Fundação Nacional do Índio – Funai, no lugar de Antônio Fernandes Toninho Costa, exonerado na semana anterior após recusar indicações políticas de pessoas que, segundo declarou, “nunca viram índios na vida”. Alguns associaram a nomeação do general aos tempos da ditadura, quando massacres indígenas eram comuns, como ficou evidente nos trabalhos realizados pela Comissão da Verdade.

Não por acaso, a mesma matéria anunciava a quebra do sigilo bancário e fiscal do Centro de Trabalho Indigenista – CTI, parceiro da Funai na interlocução com povos isolados ou de recente contato. A quebra do sigilo ocorreu a pedido da CPI Funai/Incra, em andamento desde 2015, composta pelos deputados federais, ligados à bancada ruralista Alceu Moreira (PMDB-RS), Luis Carlos Heinze  (PP-RS), Nilson Leitão (PSDB-MT), Valdir Colatto (PMDB-SC) e Marcos Montes (PSD-MG). Conforme noticiou Willian Bonner, o relatório da CPI “pede o indiciamento de 103 pessoas, entre indígenas, antropólogos e integrantes do Ministério Público”. Não gratuitamente, a Antropologia, que até pouco  passava ao largo do grande público, recebe projeção nacional. De alguma forma, debates sobre a questão indígena que pareciam circular apenas na acadêmia vieram a público, marcando momento de inflexão da área no País. Mas o que isso nos fala sobre o Brasil e o momento pelo qual passamos? No Brasil, a Antropologia está associada aos estudos de comunidades tradicionais como a indígena, camponeses e ribeirinhos. A partir dos anos 1970, estende suas pesquisas também a grupos urbanos. Nas últimas décadas, o campo teve crescimento significativo, com a implantação de diversos bacharelados, aumento de concursos públicos, criação de novos programas de mestrado e doutorado na área, juntamente com maior investimento em bolsas de pesquisa. De forma sintética, o antropólogo é o profissional que estuda a diversidade cultural humana, por meio do convívio prolongado, da comparação entre dados e da produção etnográfica. Está habilitado a refletir sobre variados modos de vida, com a intenção de criar interlocução entre culturas distintas, no sentido de valorizar a pluralidade humana. Questões como a demarcação de terras indígenas e de quilombolas, cotas étnico-raciais, soberania alimentar, respeito à diversidade sexual e de gênero, in tegram os temas que circulam nos debates antropológicos. Entretanto, na atual conjuntura nacional, esses debates, parece, tornaram-se perigosos. Para quem? Por quê? Não deixa de ser irônico. É de conhecimento daqueles que têm contato com a área, comentário feito, nem sempre a boca pequena – e registrado pelo antropólogo Otávio Velho – de que o “Brasil é o inferno dos politólogos, o purgatório dos sociólogos e o paraíso dos antropólogos”. A anedota registra a proximidade entre Antropologia e Estado. De um lado, devido a nossa vastidão continental, o trabalho antropológico cumpre a função de apresentar o Brasil aos brasileiros, por meio de pesquisas nos mais variados rincões; por outro lado, essa proximidade aponta o campo de trabalho mais comum para esses profissionais: docência em universidades públicas ou atuação em órgãos governamentais como Funais, Incra e Iphan.    

 
      Atuar junto ao Estado não significa, necessariamente, servir ao Estado. Dessa forma, o conhecimento produzido pela área, contraria, muitas vezes, interesses de alguns segmentos da classe política. Isso fica evidente nos inúmeros ataques que a Antropologia tem sofrido, acentuadamente a partir de 2009. Refletir sobre a complexidade desse momento é a intenção desta série de reportagens que deu início aos trabalhos do Prisma: Jornalismo Colaborativo. Reportagem: Vagner Barreto  

Questão indígena se arrasta no País

Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Nivo, instalada na comunidade Kaingnag da cidade de Farroupilha (RS)

Leia mais: Kaingangs e seus 12.000 anos de identidade Leia também: Indígenas enfrentam a maior ofensiva parlamentar em 20 anos (Reportgem Agência Pública) Temer abandona plano de retirada de posseiros em terra indígena