Atualizado em 22 de janeiro de 2020 – 21:11

Resistir é preciso, apesar das fraturas
dinarte albuquerque filho – jornalista

(Resistir é preciso)

Muitos chegaram ao fim de 2019 exaustos, sentindo-se impotentes diante de tanta desconstrução.

Há pouco, o comportamento acintoso de um representante público federal provocou rasgos no tecido social, ondas, por instantes concêntricas, como se uma pedra tivesse sido jogada na plácida superfície de um lago. Sobre o assunto, muito já se disse, muito ainda se vai dizer, até porque outro ministro já havia se apropriado de referências nazistas e/ou preconceituosas e, no entanto, aquele chama mais a atenção pelos crimes contra a Língua Portuguesa do que por outras incompetências e sobrevive sob a asa protetora da iniciativa privada.

É verdade que nos últimos meses do ano que passou vimos, ouvimos e vivemos coisas que transpuseram algumas demarcações morais, emocionais, espirituais e outros quetais. Certa feita, Cecília Meirelles (1901-1964) escreveu sobre os dias: “Dentro deles vivemos,/ dentro deles choramos,/ em duros desenlaces/ e em sinistras alianças”; alguns episódios tornaram menos poéticos a “virada” de 2019, e os primeiros dias de 2020, e confirmam o cenário descrito pelos versos da poeta carioca, que morreu no ano em que o Brasil chafurdava na lama ditatorial.

A manifestação no centro de São Paulo, promovida em novembro por representantes da Frente Integralista Brasileira (FIB), e o ataque à sede do grupo de humoristas Porta dos Fundos, no Rio de Janeiro, na madrugada de 24 de dezembro, reivindicado pelo Comando de Insurgência Popular Nacionalista da Família Integralista Brasileira e tendo como principal suspeito Eduado Fauzi Richard Cerquise – foragido e incluído na lista de Difusão Vermelha da Interpol –, provocaram abalos na incerta democracia brasileira.

Como se não bastasse, ainda em dezembro, um sujeito com uma suástica no braço sentou-se à mesa de um bar em Minas Gerais. A Lei 7.716/89 prevê no artigo 20 que “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional” implica em reclusão de um a três anos, mais multa. Há um parágrafo específico sobre o tema, o 1º: “Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular, símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo”. Nele, está prevista reclusão de dois a cinco anos e multa. Mas, a vida segue.

Mais do que nunca, resistir

A resistência ao obscurantismo também ganhou visibilidade; o mundo está perplexo. No Chile, mulheres com olhos vendados e dedos em riste, protestaram contra o machismo estrutural e a violência contra a mulher. A canção criada pelo coletivo feminista Las Tesis, de Valparaíso, e os gestos daquela manhã de domingo nas ruas da capital chilena, foram reproduzidos ao redor do mundo, mobilizando, em diferentes momentos, as brasileiras em várias cidades do país. Na passagem do ano, a Praça Itália (ou Praça da Dignidade) voltou a ser ocupada por milhares de chilenos conclamando a união do povo.

Indiferentes aos esbirros de gente mal-humorada, a sueca Greta Thunberg, a paquistanesa Malala Yousafzai e o estadunidense Leonardo DiCaprio fizeram coro a favor de um mundo melhor, num ativismo humanitário que procurou se impor às palavras de ordem proferidas com ódio e mentiras que circulam pelo mundo virtual com igual proporção com que são ouvidas nas ruas e nas relações entre pessoas próximas ou por motivos fúteis.

Dezembro também foi de manifestação na Itália. O movimento Sardinhas reuniu mais de 100 mil pessoas nas ruas de Roma cantando Bella Ciao, o hino de resistência italiana, para que os candidatos e os eleitores voltassem a fazer política e não politicagem. Lá, como aqui, a direita se fez com o uso das fake news e da manipulação de dados; aqui, diferente de lá, parece que ainda falta alguma coisa para que as ruas sejam ocupadas por outras representações sociais que não os pedintes, os sem-teto, os que passam fome por não terem acesso a melhores condições de vida, saúde e educação.

Ainda em dezembro, representantes dos países que assinaram a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), participaram da 25ª Conferência das Partes (COP25) em Madri, na Espanha. O ministro brasileiro do Meio Ambiente fez o que todos os demais ministros têm feito no último ano, quando não apelam para a grosseria, a exemplo do líder maior: tergiversou. Sem ambição, o Brasil perdeu o lugar de protagonismo nos debates internacionais, desconectado dos líderes mundiais, enquanto a Floresta Amazônica ardia em chamas; teme-se por novas áreas incendiadas a partir de maio, quando tem início a temporada de desmatamento – lembrar que em 2019 a área amazônica teve 9.762 km2 de área desmatada, o maior índice desde 2008, e, embora haja o comprometimento do governo, explicitado no âmbito da Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), as práticas não confirmam a intenção.

Muitos chegaram ao fim de 2019 exaustos, sentindo-se impotentes diante de tanta desconstrução, ensandecidos com os picos de calor e frio e apavorados com a incidência de enchentes e furacões. E o começo de 2020, sob temperaturas que indicam que o mundo está quase um grau mais quente (não só metaforicamente), com o nível do mar subindo e havendo o risco para o cultivo de alimentos como o arroz, o milho e o trigo, com a acentuação de doenças como a malária e a dengue, velhas inimigas, a situação pede que sejam adotadas mudanças abrangentes e sem precedentes, no menor tempo possível. Não só na política, como na maneira que nos relacionamos, com os outros e com o entorno.

Em 2011, o historiador britânico Eric Hobsbawn (1917-2012) havia alertado para o recrudescimento das forças reacionárias, entre elas o fundamentalismo religioso, e a prevalência da ala de extrema direita, responsável por algumas das maiores tragédias do século XX e outras das primeiras décadas do século XXI: a normalização da violência contra as minorias, a perseguição a opositores e a intimidação da imprensa. Que seja relido, que seja lembrado, que seja compartilhado.

Parece faltar compromisso histórico para reverter o quadro de extremismos. E talvez a contrapartida para a intolerância, seja também a intolerância. Sejamos intolerantes com aqueles que ameaçam as bases da convivência humana e dos direitos civis com punhos, dedos em riste e armas; intolerantes com os comportamentos que prejudicam outros, com o cotidiano esquecimento. Mas também sejamos capazes de perceber a irracionalidade da intolerância, para que possamos respeitar a diversidade e as crenças religiosas, conviver com nossas fraquezas e nossos erros, sem nos esquecer das raízes de nossas preferências e sem legitimar certos princípios de ação.

Que em 2020 haja mais diálogo, harmonia, equidade e resistência.

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