Seu Beto "amanhece"antes do sol

Seu Beto, filho de peão campeiro começou a lida cedo

 

Seu Beto é um peão desassombrado, desses que garantem não ter medo de vulto ou assombração quando atravessam os campos de Palmas, na Serra do Sudeste, em Bagé, nas madrugadas escuras do sul rio-grandense. A região do pampa gaúcho é destacada pela particularidade dos campos de pedra, ou campos dobrados, com paisagem marcada por acidentes geográficos, peraus, afloramentos rochosos e guaritas, um mosaico de campos, pedras e matos.

 
Seu Beto,  filho de peão campeiro, saiu da estância aos oito anos. “A melhor escola é a do mundo”. Mundo que ele foi conhecer. Mas voltou, aos dezesseis, quando o pai deixou a lida. Atualmente, ele e a esposa, proprietários de uma quadra de campo, onde criam gado e ovelha, cultivam milho e feijão e cuidam de uma quinta – pomar com árvores frutíferas, já que “casa sem quinta, não é casa”. Da quinta saem as frutas para a produção de doces artesanais que comercializam, como figo, abóbora, marmelo – retirado, também, dos matos.
 

Na estância onde campareia, Seu Beto faz “de tudo”. Cria porcos, ovelhas, cabras, patos, galinhas, cavalos e cerca de 530 cabeças de gado – que pertencem ao patrão, mas, também, a sua esposa e ao filho deles. Os animais são contabilizados pelo peão, que sabe qual pertence a quem, quantas crias teve, e faz a divisão em caso de venda, cuidando para que o animal vendido seja correspondente ao dono. “Se eu ver uma vez, eu conheço. Eu gravo o animal”.
É nas Palmas que ocorre a produção de novilhos, que são vendidos para outras propriedades, onde serão engordados.

 
As vacas que tiveram novilho recentemente estão num cercado mais próximo da sede da estância. As demais, ficam em uma invernada, campo aberto onde pastam soltas. Como relata Seu Beto, os cães fazem a lida junto. Ele leva para a invernada os cinco – Leixiguero, Tigre, Diana, Campeiro e Barbudo –, misturas com ovelheiro gaúcho. Os demais cachorros que ficam na propriedade são veadeiros. Diferentemente dos outros, que ficam soltos, eles são mantidos presos, ou amarrados ao pé de uma árvore.
 

Os cachorros avançam, recuam, correm, evitando que os animais se dispersem

Cachorros são auxiliares importantes de Seu Beto na lida do campo

 
Com os cachorros, Seu Beto vai reunindo o gado. Para isso, grita com som gutural: “Oiá lá”, “Ói e volta lá”, “Ataca de fora”, “Olha lá”, “Volta lá”, “Ataca lá”. As ordens podem ser feitas em voz alta ou baixa, lenta ou rapidamente. Dessa forma, os cachorros sabem a intensidade da investida a dar, que posição tomar, se devem recuar ou buscar algum animal desgarrado, enfiado no meio do mato.
 

 
Os cachorros avançam. Correm e recuam. Vão em grupos de tamanhos variados, às vezes sozinhos. A aproximarem-se dos animais,  contornam o grupo, enquanto vacas e bezerros tentam fugir pelo campo. Os cachorros, então, latem, correm e tentam morder os calcanhares das rezes, fazendo-as recuarem e retornando ao grupo. Enquanto as vacas se abrupam, os cachorros tentam atacar, mas são chamados por Seu Beto, que altera o tom de voz, num acorde mais ríspido. A intenção não é que mordam, por isso, os cachorros devem ser incentivados na medida exata, “pra que nunca machuquem”. Seu Beto explica que os cães aprendem a lida com ele, mas, também, com os outros cães.

 

Dia começa cedo pra Seu Beto

Ele desperta por volta das 3h ou 4h da madrugada. Nesse horário, deixa a casa e vai, a pé ou a cavalo, até a estância do patrão, por entre trilhas e caminhos pelo campo. Algumas vezes, dependendo do tempo ou da lida, dorme na sede. Seu horário obedece o relógio da lida, que, por sua vez, é determinada pelos ciclos da natureza e de vida e morte dos animais.

 
As primeiras lidas são as do entorno da casa: dar comida aos animais no terreiro – vacas, galinhas, cavalos, cachorros; tirar leite; soltar ou prender animais do campo; buscar as cabras que, “se criam aqui, nas pedras”. Cuidadoso, costuma juntar as cabritas três vezes por semana, quando são tratadas com milho para não se asselvajarem. Alguns poucos bodes circulam no campo, mas, arredios, é difícil vê-los. Já as ovelhas devem ser juntadas com frequência para examinar e evitar que desenvolvam frieira, que mata.

 
Em seguida, começa a lida com os animais, como buscar o gado na invernada para contagem; separar o gado para venda; ver vacas que estão perto de parir; curar bicheira; trazer pra perto de casa os animais com filhotes. As crias são alvo de atenção pelo grande perigo que correm sem a proteção humana. Cobras, corvos, javalis, zorros (Lycalopex gymnocercus), são fonte de preocupação. Rondam os campos. Os último “comem até galinha”, explica seu Beto.

 
O fim da tarde é reservado ao resgate de animais perdidos, pois “é o melhor horário para encontrar”. Certos animais territorializam e, algumas vezes, não obedecem ao chamado, indo dormir numa coxilha, ou debaixo de determinada árvore. Na relação com os animais, Seu Beto sabe os locais onde encontrá-los. Em outros casos, alguma fêmea pode se esconder na hora de parir, o que coloca mãe e filhote em risco.

 
Seu Beto aprendeu no cotidiano da lida, com outros peões, mas, também, com outros animais, e partir disso sentencia: “a pessoa torna-se campeira quando passa a conhecer os animais.

 
Hoje, ele segue na lida e na leitura de livros que ganha. Entre as doenças, Seu Beto destaca a peste da mancha e a gangrena. Tristeza também é doença que dá em boi. O animal “ou fica brabo, ou fica louco”. Animal com tristeza não pode enlaçar no pescoço, que morre”. A tristeza está no sangue. “Para salvar um bicho eu faço qualquer coisa.

 

Texto: Seu Beto e Vagner Barreto
Fotos: Guilherme Santos / Sul21
Colaboração: Daniel Vaz Lima, Juliana Nunes (Flor Ariza)
Coordenação: Flávia Rieth