Trompetes da união

Carlos Roberto Winckler*

 

Em tempos de exceção o que tem prioridade? Arranjos regionais em prejuízo de unidade frente ao golpe e suas políticas destrutivas ou arranjos regionais (com eventual sacrifício de peões) com o objetivo de eleger o máximo de deputados federais com compromisso de combater o golpe nacionalmente e criar condições de transferência de votos?

A persistência na manutenção da candidatura Lula levou a confusão às hostes golpistas. Mas, sem ilusões, o candidato do partido mais forte e representativo do País encontra-se preso e o aparato judiciário não poupará esforços, nos dias que se aproximam, em inviabilizar sua candidatura. Toda frieza e cálculo são necessários. Nem por isso há certezas. A política, em certa medida, é o mundo da incerteza. E por que esse partido não teria legitimidade em indicar substituto?

As fundações dos partidos, que vão da centro-esquerda à esquerda, produziram documento com pontos básicos que podem nortear políticas de combate de forma unitária no plano executivo ou parlamentar. O critério de julgamento sobre o PSB, por vezes, parte de uma simplificação: partido que apoiou o golpe. É fato. Dois terços dos deputados votaram a favor do infame impedimento de Dilma. Mas como se comportaram no decorrer da votação de projetos regressivos na Câmara Federal (para ficar nessa instância) ? Não se pode conduzir uma avaliação política congelando-se no tempo os envolvidos. Claro que há situações limite, em que o PSB é quase um apêndice de partidos articuladores do golpe (SP, RS). De qualquer forma, o que se articula é a constituição de uma frente progressista, conduzida pelo partido mais forte e reconhecido do País.

O que há de extraordinário nisso? Extraordinário seria abdicar para um candidato que fez acenos à direita e à esquerda (mais à direita) que tinha expectativa de que a presidência poderia cair em seus braços sem maiores compromissos. Em que pese isso, ainda há tempo para negociações no sentido de incorporar Ciro a uma grande frente. Tudo que a direita não deseja. As dificuldades de Alkmin decorrem de lances táticos que os golpistas subestimaram. Acreditaram que a prisão de Lula seria suficiente para arrefecer a resistência. No reforço a essa visão contaram com categorias subintelectuais repetidas há décadas por “senhoritos” udenistas: populismo, messianismo, sobrou até para os portugueses, sebastianismo. Subestimaram as bases materiais do carisma lulista (as políticas dos 13 anos, apesar de seus limites) e o fato do PT ser um partido nacionalmente organizado com relativa consistência.

A direita é vítima de si pelas políticas destrutivas e pela cegueira ideológica. Alkmin superará Bolsonaro? A direita golpista criou as condições para o surgimento à luz do dia dessa monstruosidade, onde a base minimamente discursiva iluminista não cabe. Seus adeptos orgulham-se do racismo, da homofobia, de uma visão de mundo tosca de ultraliberalismo colonial. Defendem uma forma tosca de ser no mundo com base no ódio e ressentimento social. Os golpistas de rendas nos punhos terão capacidade de superá-lo? Ou tentarão no desespero, em nome da paz e da razão, adiar eleições com base em mais uma traquinagem jurídica? Nunca uma frente foi tão necessária. As palavras de ordem proferidas por milhares no Mercado Público de Porto Alegre e ruas adjacentes, recentemente, sintetizam a única forma de resistência que temos em nossas mãos.
O povo unido, jamais será vencido!

 

Trompetes da União

* Carlos Roberto Winckler é sociólogo
professor de Sociologia
pesquisador aposentado da FEE

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