dinarte albuquerque filho
dinarte albuquerque filho

Na onda, quase marola, de
um ex-presidente estadunidense, leio a chamada afirmativa: “Você pode!”,
na vitrine da loja da esquina

Será que quiseram se referir às prestações oferecidas, o que significaria condições mais favoráveis para o consumo? Ou algo mais subjetivo, como um estímulo à “liberdade de escolha”? Não capto de imediato o objetivo da campanha, me distraio com o movimento e sigo minha caminhada. Mais adiante, noutra vitrine de uma loja popular, me deparo com uma garatuja: “Crescer pra quê?”; esta, mais evidente, é peça de uma campanha bem-intencionada para o Dia das Crianças – é o que indica o interior, abarrotado de peças de vestuário e brinquedos alusivos à data e à faixa etária.

Mais tarde, compartilho um café com a leitura de um cronista que escreve sobre o nível de infantilização na sociedade, que tem como epicentro da zoeira nacional as fundações arquitetônico-ufanistas de Juscelino e Oscar. Quase de imediato, as pinturas nas vitrines adquirem outros sentidos, assim como minhas considerações. E devo admitir, sem conseguir admirar, apenas me espantar, a capacidade de elaboração do retrocesso.

compartilho um café com a leitura
de um cronista que escreve
sobre o nível de infantilização na sociedade

Enquanto ocupo meu pensamento com essas “questões circunstanciais”, sob a agradável (sic) sombra das marquises, dirijo-me à praça Dante Alighieri, nesta Caxias do Sul que vive de premissas que parecem prováveis, que de tempos em tempos revive e reaviva parte da população, que ora respira aliviada. Nesses dias, o coração metafórico da cidade, que já ostentou o título de Capital Brasileira da Cultura, em 2008, nesses dias, o coração industrial da cidade pulsa em torno dos livros, enquanto os leitores cadenciam a disritmia até o encerramento de mais uma Feira do Livro.

Sob o anticlímax do clima e dos entraves administrativos que sempre circulam por trás das bancas da feira, a maior atividade literária da cidade se desenvolve até o momento em que Rafa Gubert e Tita Sachet encerrarem sua apresentação no dia 13 de outubro, dois dias antes das comemorações em torno da padroeira da cidade, Santa Teresa, escolhida na época em que a colônia era reconhecida pelo alto grau de moralidade e pela incansável caçada aos ratos que infernizavam a vida dos primeiros colonos que aqui se estabeleceram, como não deixa esquecer Dom José Barea, traduzido pelos historiadores Mário Gardelin (1928-2019) e Rovílio Costa (1995). Como também não podemos esquecer que os ratos ainda circulam/sobrevoam pela cidade.

nesses dias, o coração industrial
da cidade pulsa em
torno dos livros

Antes de começar a escrever, o slogan da Feira se insinuava no emaranhado de meus pensamentos e ainda me acompanha além das esquinas da praça. Assim: se somos o que lemos, assim como somos o que comemos, pode ser que estejamos lendo mal e nos alimentando mal também. Pode ser, como pode não ser, adequada minha interpretação – definitiva é que não! –, mas ela só deixa de existir quando lembro que tudo é cíclico e, então, em breve, estas trevas que nos envolvem tendem a ser iluminadas. Mas o desconforto persiste, mesmo que a primavera, aos poucos, dê um novo colorido à cidade e distraia o olhar que, há poucos meses, só tinha a arquitetura cinza a ocupar-lhe o campo de visão; quando releio que, uma vez, aprender a ler e educar-se tinha a ver com uma “passagem ritualizada para fora de um estado de dependência e comunicação rudimentar” (MANGUEL, 1997, p. 89). Então.

Em 1997, o governo do
acadêmico Fernando
Henrique Cardoso já havia
cortado as bolsas de estudo

Você pode? O quê? Crescer pra quê mesmo? No sobrevoo por um dos contos do controverso J. D. Salinger, vejo que ele considerava que “o mundo adulto arruína o mundo infantil” (2014). Em 1997, o governo do acadêmico Fernando Henrique Cardoso já havia cortado as bolsas de estudo e pesquisa – cerca de 11 mil bolsas para “economizar” R$ 100 milhões. Vinte e dois anos depois, o corte é mais significativo e recuamos ao estado do medo do “perigoso” encontro com as ideias revolucionárias que podem estar contidas no ato de ler. Os responsáveis pelos cortes parecem estar contaminados pela cegueira que Saramago, tão bem, denunciou em 1995 e que ainda persiste nos corações. Em contrapartida, “Quem vê, é quem percebe a crueldade do capitalismo e não aceita viver nesse mundo sem esperança”, resenhou o português João Manuel, por ocasião da edição do livro. Estou inclinado, por essas e outras, a concordar com Salinger e a sentir o desconforto crescer conforme a idade avança e meus caminhos me conduzem de volta pra casa.

Talvez um dia caia o véu fundamentalista que impede de enxergar a beleza da vida no que levemente se insinua ou persiste. Na tentativa, na possibilidade, na incerteza – sem as estúpidas convicções que só promovem a tristeza –, quem sabe possamos viver sem o ranço e com a impotência da idade avançada, sem depender da cínica boa vontade do comércio; saberemos que ler é poder, sem nos curvar diante das medidas passageiras e da insipiência de governos. Enquanto isso, voltemos à praça ou, melhor ainda, às ruas, e deixemos livre o olhar e o pensar. Ler nos determina sem nos interromper, nos enche de perguntas, como a uma criança que começa a descobrir o mundo em que vive e nota que ele não é tão amoroso quanto poderia ser. Mas que continua a tentar.

A partir de BAREA, José. A vida espiritual nas colônias italianas do Estado do Rio Grande do Sul (1925). Trad. e introdução: GARDELIN, Mário; COSTA, Rovílio. Porto Alegre: Edições EST, 1995; MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. Trad.: Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 1997; SALINGER, J.D. A gargalhada. In.: Salinger. SHIELD, David; SALERNO, Shane. Trad.: Carlos Irineu da Costa… [et al.]. 1. ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

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*dinarte albuquerque é jornalista, mestre em literatura pela UFRGS