dinarte albuquerque filho
dinarte albuquerque filho – jornalista

Escrever é exercitar o pertencimento.
Por isso, insisto em traduzir minha noção de mundo, o descontentamento com meus sentimentos, para que estes não se tornem tóxicos, para que eu não esqueça o léxico

Escrever dá a medida da existência de quem escreve. Da periferia ao centro, vice e versa ou ao contrário, o princípio vitruviano de utilidade, de beleza, de solidez convive com a sordidez do descaso no caos urbano. A cidade cabe na palavra, a angústia é atenuada; como o sol encontra caminho entre as brechas da persiana dos apartamentos, a felicidade só se compara com a lembrança do olhar terno.

Certa vez, li que escrever é a vingança de quem lê muito. E repeti incontáveis vezes a frase, quase como um mantra, até me dar conta de que ler é algo próximo do sublime e tem outros propósitos, e que escrever é algo além de uma vingança, palavra triste como tantas que povoam o vocabulário atual – como desigualdade, indiferença, violência, miséria, ignorância.

Escrever é encontrar um lugar no mundo; é exercitar o pertencimento. É uma forma de diálogo com os iguais e também com aqueles que pensam diferente; é uma tentativa de inscrever-me socialmente, com leveza e pacificação – mesmo que provocativa. Por isso, a insistência em percorrer o teclado ou a página do papel, traduzindo minha noção de mundo, o descontentamento com meus sentimentos, para que estes não se tornem tóxicos, para que eu não esqueça o léxico. Assim como o atleta ajusta o chute para atingir a meta, o escritor metido a linguista reflete em busca da palavra que organize o que precisa ser entendido.

Escrever é encontrar um lugar no mundo;
É uma forma de diálogo com
os iguais e também com
aqueles que pensam
diferente; é uma tentativa
de inscrever-me socialmente,
com leveza e
pacificação – mesmo
que provocativA.


Uma das formas que encontro é a poesia, da que nasce espontânea da massa informe das palavras àquela que é submetida às descrições a partir de fórmulas universalistas; entre elas, o haicai. Na língua portuguesa, o haicai foi introduzido pelo escritor, diplomata e militar português Wenceslau de Moraes (1854-1929), o primeiro tradutor do haicai. O autor adotou a forma da quadra poética em redondilhas para a transcriação dos tercetos japoneses e valorizou os trocadilhos, paronomásias, expressões populares e outros elementos de função poética presentes no haicai tradicional, criado no século XVI – dos três versos com 17 sílabas (5-7-5), sem rima nem título e com termos-de-estação do ano, o kigô (kigo).

No Brasil
O “japonismo no ocidente” também influenciou os modernistas brasileiros que participaram na Semana da Arte Moderna em 1922, mas foi o teórico literário Afrânio Peixoto (1876-1947) quem fez a primeira referência a ele no Brasil de 1919. Com o passar dos anos e a liberdade poética instaurada a partir da década de 1920, o haicai passou a ser escrito ao gosto dos simpatizantes, conforme as influências literárias e as experiências individuais. Mas nem todo poema de três linhas é um haicai, assim como nem todo poema tem poesia. Há um paradoxo em torno do haicai: ele é simples e, ao mesmo tempo, exige habilidade para abstrair o momento – abstrair-se do momento.

Agora, “conseguir” um haicai é habitar um espaço de tempo na linha da eternidade. Uma fração de segundo que dura mais do que o espanto e a apreensão do instante.

Escrever um haicai é atingir a “consciência inconsciente de si mesma […] uma forma de agir pela não-ação”, diz Paulo Franchetti, na introdução da antologia Haikai (1991). Escrever um haicai é como estar de passagem, o que torna o poeta, hóspede; mas, no tempo em que permaneço, procuro ordenar o entorno conforme minhas atenções. O haicai é referencial na construção de minha identidade poética não só pela leitura gustativa que revela o “sabor do haicai”, mas também pela tentativa de escrevê-lo, ainda que seja à maneira brasileira – os elementos naturais característicos da tradição japonesa, como o kigô, acrescidos da pessoalidade e dos sentimentos, da indisciplina técnica, do humor, da política/denúncia social, da ausência de pontuação e, às vezes, com título.

Com ele, mínimos hábitos ganham proporções que nem sempre têm o leitor como testemunha. Assim como nem sempre se viabiliza o haicai, síntese do universo e paradigma da síntese poética. Talvez, se eu fosse menos ocidental seria mais fácil percorrer um caminho iluminado, como o proposto por Matsuó Bashô (1644-1694). Tornaria mais cristalina a compreensão da solidão e da quietude da grandiosa beleza do Universo, em meio à acidentalidade do urbano; teria como conjugar a simplicidade com a sutileza, e não precisar me esforçar tanto para dar sentido às palavras quando quero conectar-me com a beleza intuitiva e transcendente.

A amplidão e a polifonia dos três versos encantam além da racionalidade. Proporcionam conhecimento, não só informação – pra lá do abismo das meias-palavras, das meias-verdades, da vida vivida pela metade, trágico destino que cabe à maioria. A poesia implode a sentença e o haicai extrapola os conceitos do sim e do não. Em tempos de verdades absolutas, de urgências desnecessárias, contemplar um haicai é se permitir uma vaguidão que não precisa de dicionário ou de manuais de auto-ajuda. Pelo contrário. A poesia que dele flui é suficiente para acalmar o espírito mais inquieto com a mesma intensidade que o torna destemido diante do abismo escuro e frio que se abre diante tantas maravilhas que a rarefeita natureza das ruas da cidade proporciona, como as cores e os aromas da primavera que vivemos e que nem sempre desfrutamos.

Agora há pouco, uma amiga contou que havia sonhado comigo. Quando acordou, lembrava que era um sonho bom mas tinha um quê de sonho ruim. Sonhou que eu havia me suicidado. O melhor da história, procurava me convencer, é que ela havia me “trazido de volta”. Haicai: dei tchau pra vida / durou pouco a viagem / voltei por uma amiga. Post para a posteridade efêmera, celebração do nunca, ansiedade sci-fi: no submundo cyberespacial, a samurai das ruas com verdes implantes oculares dança ao som de Fausto Fawcett, enquanto escrevo e não a vejo.

Lembro o começo de um poema, um poema longo, de Ferreira Gullar (1930-2016), “A poesia” (in 2000). E a partir dele, lembro de uns versos meus/lembro de mim: “feito uma gargalhada / soa como a vida // o único bem q nos resta”. Quero dizer: escrever não se resume a exercitar e aprimorar a alfabetização, expandir a consciência, denunciar as diferenças, tornar a morte trivial; ao contrário de equilibrar o tempo ao meu favor ou “deter a vida com as palavras”, libertá-la, “falar o dia”: “a vida – qualquer uma – me atrai”.

É sabido que um momento é suficiente para mudar o rumo das coisas. Ao caminhar pelas ruas da cidade, quase esquecido das glórias que sonhei e quis realizar, sorrio. Enquanto me dirijo ao paraíso, que às vezes observo do outro lado da calçada, a vida evita que eu seja atingido pelo automóvel que corta minha frente enquanto distraio o olhar no arco de minha íris; memorizo versos em reverência ao amor que eu não soube corresponder, mas não evito que as palavras se transformem em crônicas assassinas da brevidade. Nesses momentos, escapa a palavra exata para consumar a eternidade no haicai que ainda hei de escrever.

Referências

GULLAR, Ferreira. Dentro da noite veloz, 1962-1975 in Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2000.
LEMINSKI, Paulo. Vida. Porto Alegre: Sulina, 1990.
TEIXEIRA, Claudio Alexandre Barros. “Wenceslau de Moraes, intérprete da cultura japonesa.”
Anuário de Literatura

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