Violência mútua? - Carlos Roberto Winckler

Carlos Roberto Winckler*

 

A mídia, nas últimas semanas, reforçou a opinião de que o País está polarizado entre mortadelas e coxinhas, em tosca operação de induzir a crer numa violência mútua. Mesmo certo candidato de oposição, na tentativa de fisgar eleitores no campo liberal conservador, alimenta essa lorota em entrevistas públicas.

Ora, a violência tem origem na direita coisista ou não. Os liberais conservadores alimentaram o Coiso por conveniência e agora posam de pacifistas. E não é apenas a indução à violência pródiga no Coiso, um esgoto ambulante. Os mortos ultrapassam, nos últimos dois anos, a centena no campo e na cidade e são sempre ativistas das classes populares, isso fora os atentados à bala em caravana de Lula pré-prisão, o assassinato de Marielle e seu motorista, até hoje não resolvidos, e o atentato a tiros registrado no acampamento Marisa Letícia, em defesa da liberdade de Lula, que resultou em pelo menos duas pessoas feridas, uma a bala. Onde as vitimas resultantes de atos da esquerda? Onde os discursos de ódio da esquerda? O processo é de mão unica.

A tentativa de colocar tudo na mesma vala mostra uma operação para justificar, no limite, razzia política autoritária a pretexto da paz e racionalidade. Coiso e seus adeptos e simpatizantes passariam a ter papel coadjuvante em uma ditadura oligárquica liberal de novo tipo. Moderna, no sentido capitalista colonial (um Porto Rico com elefantiase?), para os abençoados de setores burgueses e da classe média em pleno gozo de privilégios garantidos pela casta jurídica. A importância do atentado está em ter aberto essa possibilidade. Quanto ao Coiso em si, não há o que lamentar. Colhe o que plantou. Temos, sim, que considerar politicamente o infortúnio que pode se abater sobre milhões. Esse o verdadeiro humanismo.

 

Violência mútua?

 

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* Carlos Roberto Winckler é sociólogo
professor de Sociologia 
pesquisador  aposentado da FEE